A manhã do dia cinco de novembro de 2007 foi diferente das manhãs dos últimos três meses, ou por que não dizer, dos últimos seis meses. Acordávamos cedo para sermos turistas.
Saímos após o café da manhã reforçado do West Highland Hotel. Uma passada na biblioteca para acessar a internet e às 10:35h em ponto partíamos no trem em direção a Fort William. Fomos até lá com a Monique, que se despediu de nós e seguiu no mesmo trem até Glasgow. Muita bagagem na mão. Apesar de sermos cicloturistas, exageramos na quantidade de coisas que levamos para Mallaig. Uma mala grande, muito grande e pesadíssima, uma mochila grande, uma mochila pequena e minha bicicleta dobrável. Se soubéssemos de antemão o que realmente faríamos na pequena Mallaig, quais seriam nossas opções de lazer, etc., certamente seríamos capazes de transportar tudo o que necessitávamos em apenas uma mochila, porém, não sabíamos. E outros agravantes: tínhamos de tirar a maior quantidade de coisas possíveis do apartamento da Sandra (pois não sabíamos se voltaríamos ou se ela continuaria morando por lá) e fizemos tudo às pressas, com dois dias para pensarmos em tudo e partir para Mallaig.
Ficamos muito mais à vontade quando deixamos a grande mala e a bicicleta no guarda volumes da estação de Fort William. Assim pudemos, com mais tranqüilidade, procurar e achar um local para nos hospedarmos aquela noite.
Fort William é uma cidade sem muitos atrativos, porém, maior que Mallaig, o que a tornou instantaneamente interessante para nós, desacostumados com “cidades grandes”.
Nosso planejamento era o seguinte: ficarmos uma noite por lá, alugarmos um carro no dia seguinte, percorrermos as Highlands e conhecermos o que achássemos de interessante pelos caminhos, passarmos a noite seguinte na estrada (num dos diversos pontos para estacionar e passar a noite) e voltarmos na manhã do dia sete à Fort William, de onde pegaríamos o trem para Londres. E assim fizemos.
Alugamos um Ford Ka bonitinho, bem novinho e lotamos o pequenino porta-malas e o banco traseiro com todas as nossas tralhas (o guarda-volumes era apenas por 24 horas). A primeira coisa a se notar e estranhar: claro, o volante do carro do lado direito. Até para o passageiro, andar do lado esquerdo do carro é estranho. Digo com propriedade, pois com minha habilitação vencida não podia dirigir, assim, obviamente a motorista seria a Ju. Ela nervosa, eu também por conseqüência, pegamos a estrada em direção a uma cidade chamada Tyndrum. Não vá pensando que pegamos uma estrada larga, com diversas pistas, como as Autobahns alemãs. Essa era de duas mãos e a ausência de acostamentos tornava-a ainda mais estreita do que é. Tudo bem, brasileiros e familiarizados com estradas de, digamos, não tão boa qualidade, seguimos pela via que para nós é contra-mão no Brasil. Porém, numa curva para a esquerda (como é estranho fazer curvas para a esquerda com o volante do lado direito) a Ju bateu com a roda traseira (esquerda, claro) na guia (sim há guias em alguns trechos das estradas) e se assustou. Paramos e após constatarmos que nada havia acontecido ao carro, por consenso, achamos melhor eu assumir o volante. Repito: que coisa estranha! Era a primeira vez em mais de seis meses que eu estava dirigindo e a primeira vez em 33 anos que dirigia nessa posição. Bom, para encurtar a história, nada demais aconteceu além de tentar pegar o cinto de segurança do meu lado esquerdo toda a hora que entrava no carro ou de às vezes levar a mão direita a uma garrafa de água que estava no porta-trecos da minha porta na hora da troca de marchas. Coisas engraçadas.
As paisagens, no entanto, eram realmente de encher nossos olhos. Paramos em todos os lugares que achamos interessantes, inclusive em diversas partes da estrada onde não havia nada, apenas belezas a serem fotografadas e admiradas.
Nosso roteiro era uma triangulação. Saímos de Fort William e rumamos para o sudeste até Tyndrum. Mudamos o rumo para leste até outra cidade chamada Oban e depois novamente alteramos nosso curso para o norte, voltando para Fort William e terminando o percurso de cerca de 140 milhas.
Passamos por monumentos, museus, centros de visitantes, castelos, cidades, montanhas, lochs, rios, cachoeiras, estradas de ferro. Curtimos muito. Acabamos dormindo num “Bed and Breakfast” (os BB’s, muito comuns por aqui) um pouco depois de Oban ao invés de passarmos a noite na estrada. Mais confortável e quente.
Como combinado com a locadora, no dia seguinte estacionamos o Ka no estacionamento da Estação de Trem de Fort William, tiramos tudo de dentro e entregamos a chave no guichê de venda de passagens da própria estação e o carro estava devolvido. Simples assim, sem check out, sem horário, sem Coisas de grandes cidades, apenas confiança.
Às 12:04h nosso trem partia em direção a Londres e sentíamos que nossas férias haviam terminado.