Hoje fui tomado por uma pergunta inesperada: “por que você gosta de morar no Brasil?”
A autora da pergunta foi Gemma. E começo por aqui para sintonizar a todos o que está rolando por aqui. Os bem engraçadinhos já podem parar de pensar que é uma omelete ou uma gemada. Gracinhas à parte, comecei a trabalhar na última terça-feira, 19/02/08. Aceitei encarar o anúncio pendurado à porta de uma loja de queijos a menos de 50m do apartamento que alugamos, entreguei meu currículo em mãos, conversei um pouco e me apresentei profissional e pessoalmente. Vinte minutos após deixar a loja meu celular tocava com a resposta positiva a respeito do emprego.
Digo que aceitei encarar, pois gostaria e ainda busco uma ocupação mais promissora, que pague mais e que seja mais próxima da área que estudei e que tenho mais afinidade: meio ambiente, turismo, ecologia. Porém, mais vale um pássaro na mão que dois voando e assim voei para a I. J. Mellis Cheese Shop. Nem sabia, mas é uma rede com seis lojas próprias e uma organização razoável.
E o trabalho não é dos piores: trabalhar em meio a queijos finos franceses, italianos, e do Reino Unido, em meio a produtos de Parma, como aceto balsâmico, prosciuto crudo, sopas francesas, geléias inglesas, pães finos, chás, biscoitos, antepastos, enfim, uma perdição de sabores e calorias, tem se mostrado uma coisa interessante. Atendo aos clientes no balcão e como a loja é pequena, também divido responsabilidades em abrir e fechar o caixa, limpeza da loja, disposição de produtos na vitrine e nas prateleiras, coisas assim. Ainda estou meio perdido, logicamente, em meio a mais de 50 tipos de queijos apenas no balcão. Mas o melhor é conhecer bastante a respeito de um mundo aparentemente à parte.
A Ju adorou meu emprego: tenho chegado todos os dias com uma novidade: o primeiro dia foi uma lata de chá africano (não iria ser mais vendida pois a data de validade já expirou), noutro foi uma lasca de queijo de cabra, uma delícia, hoje uma baguete (que mais parece um pão italiano – delicioso).
E, então, hoje, ao conversar com Gemma que é a gerente da loja, muito simpática e solícita veio a pergunta: “por que você gosta de morar no Brasil?” Fiquei sem palavras. Lembrei do filme Ilha das Flores (aliás recomendo a todos que vejam esse curta gaúcho com roteiro de Jorge Furtado, de 1989), não por nada relacionado às nossas diferenças e mazelas sociais que vivemos no Brasil – muito bem retratadas no filme, que ainda se mantém atual – e que são quase incompreensíveis para quem nunca saiu daqui, mas pela última frase desse fantástico filme, que diz: “Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”* Acho que não tenho como definir porque gosto de viver por essas terras quentes. Comecei tentando falar do clima, pois aqui o frio é muito, mas lembrei que por demasiadas vezes reclamei muito do calor insuportável daí. Debandei para nossa geografia e nossa natureza, mas lembrei do desmatamento. Falei das pessoas que são boas e acolhedoras e lembrei da violência. Percebi-me reticente. Realmente fiquei confuso. Mas pensando agora, com mais calma e reflexão, talvez tentasse explicar a coisa da seguinte maneira: “nós temos lá no Brasil uma coisa que se chama calor humano. Não que vocês não tenham aqui, até que aqui nessa cidade tenho encontrado isso, mas lá tem mais.” Acho que esse seria um bom começo. O fim da discussão não sei onde seria, mas certamente estaria muito, muito longe.
* retirado de : http://www.casacinepoa.com.br/site_antigo/port/roteiros/ilhafl2.txt