BLOG DO FÁ SAMORI

As experiências, sensações e aventuras de alguém que saiu do Brasil para experimentar o mundo.

30

de
setembro

Big Plans

Bem meus amigos e leitores hoje chegou a hora de falar para vocês algo que tenho certeza que será um dos maiores passos que já dei em minha vida. Tenho um motivo especial para isso, pois o veículo capaz de me transportar nesse sonho, nessa aventura e nesse “doutorado” chegou hoje.
Minha nova bicicleta está aqui olhando para mim. Não vou entrar no mérito da bicicleta propriamente dita, pois isso será assunto de um outro blog que comecei a escrever e vai tratar aprofundadamente desse assunto.
É engraçado para mim, pois me faltam palavras para dizer o que quero. Faltam, por um lado, porque para muitos leitores que eventualmente não me conhecem, isso poderá não significar grande coisa. Fico com receio de super especular algo que é importantíssimo para mim, mas que mesmo para quem me conhece, não trará muita coisa.
O fato é que depois de muito planejarmos, muito conversarmos e divagarmos sobre o que faríamos enquanto a Ju estivesse fazendo seu doutorado, chegamos a conclusão que passaremos esse tempo (o do doutorado dela) morando em locais diferentes. Ela optou por um curso que acontecerá em três países diferentes: Reino Unido, Alemanha e França. Seria muito difícil, por mais que me expresse bem, conseguir emprego nos dois últimos países, pois não falo “bulhufas” de ambos os idiomas. Também não me agrada muito o fato de ficar sem trabalhar ou sem fazer outra coisa e vivendo na aba da minha esposa por tanto tempo. Nada de machismo aí pessoal, porém, acredito (aliás tenho certeza) que se fosse o contrário a opinião da Ju seria exatamente a mesma que a minha.
Assim quando a Ju for partir para o doutorado dela, vou partir para o meu: vou sair da Escócia e seguir para o Brasil de bicicleta.
Ah sim, tem o Oceano Atlântico para atravessar? Errado, vou atravessar o Pacífico, do Japão para o Alasca. Ou seja, vou fazer o caminho pelo “lado contrário”. Os detalhes dessa viagem estarão no blog http://ciclonavegando.blogspot.com e qualquer um poderá acompanhar tudo, desde toda essa fase de planejamento até a hora de estar com o pé na estrada mesmo.
Uau falei! Que alívio publicar isso. Vocês nem imaginam. Gostaria de falar antes, mas há uma série de fatores a se levar em conta quando se fala de algo assim, principalmente para a família. Bom, agora é com você para acompanhar além desse o outro blog, que agora no começo está contando sobre como comecei o cicloturismo e logo mais vai começar a detalhar os preparativos da grande viagem. Você é meu convidado para me acompanhar… pedalando, inclusive. Sinta-se a vontade.

30

de
setembro

Nova Casa, Velhos Hábitos

É bom estar em casa nova. De fato, de fato o apartamento não é novo. É realmente bastante antigo, como a maioria das construções por aqui. Mas casa velha por casa velha, nossa casinha no Brasil tem já lá seus 70 aninhos.
Mudamos há cerca de duas semanas e fizemos um acordo com o dono: um desconto mensal no aluguel em troca de uma limpeza, pintura nova e uma pequena melhoria no piso de madeira. Valeu a pena, mas cansou.
Prá começar, não consegui entender como uma pessoa (o apê era habitado por uma garota japonesa) pode viver em condições de sujeira como as que encontramos aqui. Achamos de dinheiro a camisinha usada no chão. O microondas era forrado de molho curry. E Por aí vai.
No setor de manutenção predial, a antiga moradora usou bom-bril para fechar cada vãozinho existente entre o assoalho e os rodapés. Não entendi o porquê disso. Pavoroso. Longos pedaços de silver tape cobriam largas frestas no assoalho (que havia sido removido e recolocado anteriormente para a instalação de um novo sistema de aquecimento).
Usamos uma semana de folga no trabalho para limpar, pintar e colocar tudo em ordem e fazer tudo direito. Valeu.
Porém, a gente nota que mesmo estando a distância que for de nossa terra, mesmo tendo opções diferentes de fazer as coisas, mesmo tendo contato e aprendido coisas que nunca imaginávamos, nossas manias, nossos gostos permanecem. Nosso novo apezinho tem as mesmas cores (quase) que nossa casa brasileira (fomos perceber isso depois de terminado). Nosso hábitos na cozinha, nos nossos afazeres em casa são idênticos aos de antes. Tudo permanece igual em nosso próprio mundo. Não interessa se o mundo em que você está mudou ou é completamente diferente de antes. Interessante…

30

de
setembro

Olá Querido Blog

Olá meu querido blog, quanto tempo.

Faz realmente bastante tempo desde o último post. Não que não tenha tido inspirações, mas eles têm vindo e ido de uma forma mais rápida. Acho que se tornaram mais voláteis talvez. Nada de mal, apenas esse simples fato.
Talvez meus planejamentos, nossos planejamentos por aqui é que tenham afetado também a baixa freqüência dos meus textos… Mas sem lamúrias.
Estamos com algumas novidades. A mais importante delas talvez seja que mudamos de apartamento. Saímos daquele que era na verdade uma kitchinete e viemos para um apartamento (flat como são chamados aqui) propriamente dito. Pequeno, mas ainda assim um apartamento, com sala, quarto, banheiro e cozinha. Estamos muito confortáveis e felizes por aqui, nessa nova casinha.
Dei uma relaxada. Peguei uns conselhos de muitos e entrei num estado de paz de espírito muito mais interessante que o eterno conflito que estava sempre em minha cabeça “esse trabalho é pouco para mim”; “e depois disso tudo o que faremos?”; “não estou sendo reconhecido pela minha formação e capacidade.” E baboseiras desse tipo. Sim sempre é bom nos questionarmos, porém, quando nossas metas, nossa vida é regida por questões que lhe deixam inquieto, paz de espírito é a última coisa que terá. E vai ser cansativo, pode apostar.
Relaxei. Acordei e vi que estamos na Europa. Que se ficar pensando nessas coisinhas não viverei meu momento e ficarei esperando pelo futuro. Temos muito o que conhecer por aqui, muito o que experimentar. Precisamos do trabalho para ter dinheiro para fazer o que queremos… mas no fim das contas é um bom emprego. Não é mole, mas dá prá tirar de letra.
Comecei a voluntariar em um dos meus dois dias de folga. Apenas por algumas horas. Meu trabalho voluntário é com algo que realmente me empolga, com bicicletas. Bike Station é o nome dessa ONG, que (acho que já comentei por aqui, mas em todo o caso) recebe bicicletas usadas (doações), as desmonta e utiliza as boas peças na montagem de outras bicicletas. As bicicletas montadas são vendidas todos os sábados, quando há fila de gente na porta esperando abrir. Além disso a Bike Station promove cursos de mecânica de bicicleta gratuito para jovens. Esse curso é dado na própria ONG e os jovens montam uma bicicleta inteirinha desde o zero. Detalhe, cada um monta a sua, e ao final do curso ficam com as bicicletas, que são zero quilômetro e compradas pela Bike Station financiadas pelo fundo de loterias do Reino Unido. Entrei em contato com a ONG por outra atividade que acontece por lá, que é chamada de Conserte sua Própria Bike, na qual todas as quartas-feiras você aluga uma bancada, um cavalete para por a bike e ferramentas, por 3 pounds a hora e concerta, limpa, enfim, faz o que quer fazer com a sua própria bicicleta.
Meu trabalho tem sido desmontar as bicicletas que chegam e separar as boas peças e as peças que são encaminhadas para reciclagem. Às vezes é meio triste – exagerando um pouco – pois desmonto bicicletas lindas, muitas antigas, porém, enferrujadas e sem chances de terem suas partes compradas por alguém (sim lá também se vendem peças usadas).
Tenho aprendido um pouco mais sobre mecânica de bikes e visto muita coisa que não existe no Brasil. Tem sido uma higiene mental excelente.
Outra coisa que tem feito bem é estar morando um pouco mais longe do trabalho, agora 1,7km. É bastante se comparado à distância que percorria antes (menos de 100m) e me faz ver um pouco de cidade, de gente.
Tenho reparado mais na temperatura que já começa a cair, na implacabilidade das estações do ano bem marcadas com as árvores já perdendo suas folhas após uma semana de outono, na beleza dos prédios, na educação dos motoristas na simpatia das pessoas.
Edimburgo tem sido mais a minha casa agora.

30

de
setembro

Amigo Primo Amigo

Pois é… já havia dito que é bom ter e ler os comentários aqui no blog. Foi de um desses que veio uma das sacadas mais geniais que tive contato em algum tempo. Calma, não é uma invenção revolucionária. Não é algo capaz de mudar a vida de ninguém (exceto, talvez a minha). Foi apenas um pensamento, uma opinião, que deve modificar profundamente como tenho vivido e enxergado as coisas por aqui.
Alexandre Samori é meu primo. Sempre nos demos muito bem. Na infância fomos muito próximos e todas as férias escolares íamos passar semanas na casa um do outro. Compartilhávamos muitas coisas e idéias. Éramos crianças e gostávamos de brincar andando de bicicleta, brincando com nossos carrinhos de autorama, inventando coisas para fazer. “Nossas casas” eram muito diferentes, o que aumentava o interesse um do outro em ir para a casa do primo: os pais dele, meus tios, trabalhavam fora o dia todo. Ficávamos sozinhos e fazíamos o que queríamos em sua casa em São Bernardo. Na minha casa a coisa era diferente. Não era “menos boa”, mas tínhamos sempre minha mãe por perto, o que as vezes facilitava uma ida ao cinema ou coisa parecida.
Na adolescência acabamos nos afastando um pouco. Durante a época que fizemos faculdade, muito. Ele veio morar no Reino Unido depois de sua faculdade e depois disso passamos alguns anos nos encontrando apenas no natal.
Acho que foi de dois anos para cá que voltamos a nos aproximar. Não sei realmente qual o motivo, mas foi algo muito bom de ter acontecido. Hoje quem está no Reino Unido sou eu, porém sinto meu primo muito mais próximo de mim que antes. Talvez quase como nos tempos de criança, infelizmente sem os carrinhos de autorama, que nos divertiram tanto e marcaram aquele período. Felizmente, porém, uma proximidade capaz de dar força, trocar opiniões e experiências e mais do que isso, (re)conhecer um Amigo que, sem saber. sentia muita falta.
O que ele disse? Bem, fica à vontade para ler os comentários aqui do blog e aproveita e comenta você também!

25

de
agosto

O que é a vida para você?

Há quem diga que a vida é amarga. E para esses deve ser mesmo.
Há quem diga que a vida é um período pelo qual você passa: nasce, cresce, começa a trabalhar, casa, tem filhos, cria-os, se aposenta e espera pela morte sentado com a boca cheia de dentes (se sobrou algum) e a sala com netos barulhentos quebrando as coisinhas que você comprou ao longo da vida e hoje servem como lembranças de uma viagem, de um período de férias.
Há quem passe por toda a vida esperando a sua chance. E esperam. Esperam e quase cansam de esperar… e a chance nunca aparece. Morrem e a vida passou, mas a chance esperada nunca.
Há quem espere da vida tudo o que imaginou que ela lhe traria, mas esqueceu-se que todo o imaginado envolvia pessoas e pessoas, bem… Cada pessoa espera da sua própria vida o que bem entender. São poucas, ou problemáticas, as que vivem em função de outrem. Isso pode ser até definido como um tipo de relação ecológica.
Há aqueles que não se bastam e precisam envolver outras pessoas para projetar seus anseios, suas ansiedades, suas frustrações, suas vontades.
Há também os egoístas que realmente não se importam com muita coisa, além de si mesmos. Não se importam se alguém está feliz, se alguém faz o que gosta de fazer. Isso não interessa a esses. Se não convertem algum benefício direto ao egoísta, não prestam e ponto final.
Há quem viva a vida inconseqüentemente e arriscam as suas próprias vidas e as de outros. Esses são egoístas? Talvez sim, talvez não. São inconseqüentes e um dia provavelmente se depararão com as mazelas criadas por seus atos.
Há quem cobice, há quem inveje, há quem invente, há quem extrapole, há quem se subverte, há quem estude, há quem trabalhe muito, há quem não goste de trabalhar, há quem julgue por impressões próprias, há que analise profundamente para tirar uma conclusão, há os espontâneos, os explosivos, os sortudos, os azarados, os falsos, os verdadeiros, os bitolados, os largados, os certinhos, os que planejam, os ricos de bolso, os ricos de alma, há todo o tipo de gente e em todo o tipo de gente há todo o tipo de sentimentos.
Acredito que cem por cento das pessoas, se não fazem atualmente, já tentaram fazer alguma coisa boa, para si próprios ou para os outros. Vivemos num mundo cheio de desigualdades, de violência e injustiças, concordo com quem pensou isso. Porém, não tentando defender ou posicionar-me do lado de ninguém, mas já pararam para pensar que sempre, sem nenhuma exceção, os bandidos e os mocinhos tentam fazer o que cada um julga ser o certo? A ótica de cada um dos lados pode ser distorcida, mas para a realidade de cada um deles, estão fazendo o certo.
É fácil exemplificar isso usando algo muito em voga hoje em dia, um ataque terrorista. Os ditos terroristas defendem seus ideais e acham que o que fazem é certo. Julgam até sagrado. A ótica é distorcida para quem é o atacado, mas as intenções dos atacantes são absolutamente justificáveis para eles próprios.
Quem é o mal, quem é o bem? Quem é bom, quem é mau? Depende.
Depende de quem vê, quem julga e quem participa.
Tudo isso é uma grande falácia e serve, na minha modesta forma de pensar, apenas para tentar exprimir uma coisa que, essa sim é comum a todos: todos vivem a vida da maneira que mais acreditam que serão felizes. Se você acha que não será feliz da forma que vive, meu amigo, passou da hora de dar-se um jeito, não acha?

11

de
agosto

Putaqueopariu!

Putaqueopariu!
Assim, mesmo, tudo junto, sem ponto, sem pausa para respirar. Só assim para desabafar. Chagamos agora do cinema. Primeira vez em um cinema em um ano e meio. O motivo do palavrão tem nome: Tropa de Elite, com o título por aqui de Elite Squad.
Como se não bastasse convidamos um casal de amigos, ele canadense, ela daqui da cidade, para irem assistir a um filme brasileiro. Que filme!
Adverti-os antes de comprar os tíquetes que foi um filme muito comentado no Brasil, mas que havíamos perdido a chance de assisti-lo nos cinemas por aí. Disse que era um filme político, explicitando alguns problemas da polícia no Rio de Janeiro.
Saímos os quatro chocados da pequena sala de cinema próximo de nossa casa. Pior que isso, sem a mínima chance de contextualizar o filme de uma maneira mais profunda, tantos os aspectos que o filme aborda envolvidos sob um mesmo tema.
O palavrão não é negativo, porém, não é positivo. Pelo contrário do que possa estar parecendo, a Ju e eu adoramos o filme. Muita violência, sem nenhuma dúvida, mas muito real também. E essa é a parte que nos angustia.
Viver aqui há um ano e meio nos deixou muito distantes – por mais que nos informemos sobre ou por mais que amemos nosso país – dos problemas vividos por aí, da realidade nua e crua.
Foi um choque assistir ao filme. Porém, lembro-me que também foi um choque assistir à Cidade de Deus, sendo que naquela época nem imaginávamos sair do país. O que passou, ou melhor, o que está se passando, no entanto, é perceber que esses problemas, como os retratados no filme, são tão intensos e tão intrínsecos em nossa sociedade, que é realmente difícil enxergar uma saída. É inimaginável para uma pessoa daqui algumas situações vividas pelos personagens do filme, por exemplo. Não por serem ignorantes ou alheios aos problemas do “terceiro mundo”, mas o que realmente acontece é que situações como aquelas não fazem, nunca fizeram e nunca farão parte da realidade da vida por aqui. Simplesmente o que não se conhece, o cérebro humano é incapaz de compreender num primeiro momento. Tente explicar a um estrangeiro de “primeiro mundo” o que é uma favela. Eles não entendem o porquê das pessoas viverem daquela forma. E continuam sem entender, mesmo depois de você tentar explicar porque aquelas pessoas estão ali, porque não saem, porque não saneiam, porque não constroem, porque não exigem do governo um auxílio maior, porque não reivindicam seus direitos como cidadãos, porque não expulsam os traficantes da comunidade e/ou os denunciam à polícia. Percebam que cada item de dúvida gera uma série de outros itens muito difíceis de serem explicados em uma conversa. Acredito que deveria existir um curso universitário com o tema “Problemas Brasileiros” e talvez em quatro anos fosse possível dar uma pequena noção do que acontece no Brasil.
É triste por um lado ver e saber que a realidade em certos locais de nosso país é exatamente como a encenada no Tropa de Elite. É frustrante por outro perceber que é difícil, quase impossível, modificar alguma coisa em nossa terra. É agonizante pensar que enquanto estamos aqui fora, vivendo uma realidade absurdamente diferente da realidade brasileira, não estamos contribuindo nem com o mínimo para que alguma coisa seja resolvida.
Senti-me um tanto quanto egoísta por estar aqui preocupado com meus planos, com meu trabalhinho, com a mudança para um flat maior, com a compra de mais uma bicicleta, com meus treinos preparatórios para uma competição para vencer os meus próprios limites, enfim, preocupado com coisas que as pessoas realmente deveriam se preocupar – se não fossem brasileiras (?) – que é buscar a sua felicidade, mas que parece algo tão pequeno frente a tanta coisa errada que acontece no lugar onde nascemos e onde queremos morrer.

9

de
agosto

Nada não!

Nossa, que semana chuvosa! E aqui em Edimburgo teve até enchente! Sim, primeiro mundo sofre com o “global warming” também. O engraçado é que num dia chove tudo o que era esperado para chover em um mês. Calma, a parte engraçada é que “toda” essa chuva foi uma precipitação de 60mm (sim sessenta milímetros) antecedidos de 15mm do dia anterior. Fecharam ruas, interditaram o anel viário que circunda a cidade e tudo mais. Assim fica mais fácil de entender como as ruas são conservadas (em geral) aqui no Reino Unido. Queria ver as trombas d’água que enfrentamos na nossa terra tropical aqui. Ia ser um caos.
Não vou escrever hoje sobre algo específico. Sim, geralmente quando abro o programa para escrever os textos já tenho tudo na “ponta da língua” e simplesmente ponho as palavras em frases e arrumo as frases para fazer um texto que possa ser compreendido. Hoje não, simplesmente tive vontade de escrever, mas não tenho um assunto pensado… então gente, cuidado, pois esse post pode ir longe!
Uma das coisas que me motiva a escrever são os comentários. Todos eles. Qualquer um que seja aproxima muito aquele que escreve desse que lhes escreve. É uma boa sensação.
Bem, deixe-me pensar nas novidades… Aqui, como dito no último post, não tem tido tantas assim, pelo menos das concretas, das que realmente ocorreram. Tem as que estão para ocorrer, mas essas não são novidades e sim planos.
Cancelamos, ou melhor, transferimos as nossas passagens de volta para o Brasil de agosto (deveríamos ter voltado essa semana) para o último dia possível, que é 3 de fevereiro. E ficamos surpresos pois não havia vôos disponíveis para São Paulo por causa de lotação nas aeronaves! Marcamos um vôo para o Rio! Alguém se habilita na carona?
Comecei há duas semanas a treinar de bicicleta. Agora com uma meta principal: participar de uma prova que se chama Audax que ocorrerá no ano que vem, em julho, numa pedalada de 1.400km em cinco dias, no percurso Londres – Edimburgo – Londres. História inventada por um amigo louco daí do Brasil que virá para cá para fazermos juntos essa prova.
Iniciei aulas particulares de inglês e percebi como meu inglês é feio! Credo!
Ah isso está ficando com “cara” de e-mail e não estou gostando.
Para os que disseram sobre isso: sim, estou sentindo saudades de tudo daí, vocês acertaram. Mas não estou desesperado.
A vida por aqui é mais “plana”, mais justa e isso faz uma diferença enorme. Isso traz uma certa tranqüilidade e oportunidade de planejar as coisas.
Enfim, escrevo para que vocês todos que acompanham este mal escrito e lacônico blog possam me sentir mais perto e para senti-los todos mais próximos, nas suas manifestações.
Não disse nada, não criei nada, não refleti, não deixei no ar, não supus, não critiquei… nada. Tenho esse direito, né?

30

de
julho

Reflexões daqui-praí

Há quanto tempo! Mais de dois meses certamente desde o último post por aqui. Dá até vergonha. Não há desculpas relacionadas a falta de tempo, nem tampouco, por incrível que possa parecer, desinteresse pelo blog. Desde que o iniciei há mais de um ano percebi que escrever é algo muito prazeroso para mim e tem até gente que gosta das minhas palavras. Isso é gostoso de sentir.
A minha ausência, no entanto, deve ser mais relacionada ao período que estou – ou estamos, já incluindo minha Ju na história – passando por aqui. Talvez as “páginas em branco” não escritas no blog reflitam um período moroso, sem muitas novidades, sem muitas realizações pessoais.
Não vou me ater à Ju e tentar descrever o que ela e eu estamos passando, pois acho que não é justo descrevê-la sem certeza e ainda por cima sem autorização. Porém, o que acredito que rola com este que vos escreve é estar se sentindo um tanto quanto estacionado. Não num estacionamento de shopping Center, com centenas de carros ao redor, mas – talvez o melhor termo seja ancorado – ancorado no meio de um oceano qualquer, sem barcos, navios, botes, caiaques ou qualquer outra espécie de embarcação ou viva alma por perto.
Pelo lado profissional, depois de ter conseguido vencer o desafio do emprego e ter assumido a gerência da loja me parece que tudo tem se encaixado numa rotina medíocre. Pelo lado pessoal – ontem conversei sobre isso com a Ju – temos apenas um ao outro. Amigos aqui são muito diferentes dos amigos daí. Não há um envolvimento mais profundo com ninguém e isso faz falta. Família, então, nem se fala. Nenhum familiar por perto. Ninguém para ir visitar, ninguém a lhe visitar. Nenhum assunto para tratar relacionado aos delicados e estreitos laços familiares que formamos ao longo dos anos que vivemos próximos aos nossos pais, irmãos, tios, avós.
Estou começando a planejar algumas coisas relacionadas principalmente às bicicletas, coisa que me aproximei ainda mais desde que viemos para o Reino Unido. Porém, ainda são planos.
Acho que, por melhor que estejamos vivendo por aqui é impossível negar que a vida aí no Brasil apesar de mais, digamos, trabalhosa, era melhor. Talvez essa seja a resposta de uma pergunta que não consegui responder no começo do ano, feita pela ex-gerente da loja de queijos: “O que há no Brasil que você gosta tanto?”. Poderia responder agora: o Brasil é o meu país, porém, isso por si só não sustenta essa minha admiração por lá. O que gosto tanto lá é a vida cercada de família e amigos que não tenho aqui.

13

de
maio

Parabéns São Paulo - Indignação

Hoje li que foi inaugurada a ponte sobre o Rio Pinheiros (mais uma) que liga a Av. Água Espraiada (me recuso a chamá-la de Roberto Marinho) à Marginal Pinheiros. Parabéns a São Paulo. Também li que após ser inaugurada no sábado, na segunda-feira seguinte a ponte já contava com tráfego engarrafado sobre ela. Parabéns São Paulo e parabéns a todos os motoristas que andam sozinhos dentro de carros que comportam no mínimo duas, mas em sua maioria, cinco pessoas. Também li que a ponte custou (ou melhor, foi ORÇADA – e sabemos que pode ter, às vezes, uma pequena diferença entre orçamento e custo real) a bagatela de 233.000.000 de reais. Parabéns a todos os cidadãos de São Paulo que pagam seus impostos e os vêm indo para obras assim, que embelezam a cidade e facilitam a vida de todos. Que bom! Li mais e descobri também que nessa nova ponte é proibido andar a pé ou de bicicleta. Parabéns novamente a toda a sociedade! Esses desgraçados que não têm dinheiro para comprar um carro e sair queimando gasolina por aí têm mais é que… arranjar outros caminhos. Não apareçam em nosso cartão postal!
É óbvio que escrevo com ironia. Na verdade quero exprimir minha vergonha em ser paulistano. Faço uma pergunta: com esse dinheiro todo – vou repetir: 233milhões de Reais – é possível construir quantos quilômetros de ciclovias? Quantos bicicletários? Quantos quilômetros de ciclo faixas poderiam ser pintados no pavimento das avenidas?
Quando li em algum lugar que “a democracia é o sistema mais justo que existe, pois cada povo tem os governantes que merece” foi como um tapa na cara. E é como deve ser. Nào é à toa que Paulo Maluf governou a cidade não sei quantas vezes e que foi o deputado federal mais votado (do Brasil!) nas últimas eleições. A sociedade paulistana quer isso. Quer entrar dentro do seu carro novo, ligar o ar condicionado e sequer pensar nos outros ao seu redor. Não se importa em poluir o ar com combustível fóssil queimado, não se importa de ocupar um grande espaço na rua – e reclama que o trânsito é ruim – não se importa com nada que vá dois metros além do seu umbigo, ou melhor, do radiador de seu carro.
Precisamos disso? As coisas mais importantes para o desenvolvimento das cidades por aqui são baseadas na coletividade. As prefeituras, os governos, as subprefeituras pesquisam junto à população sobre o que é melhor a se fazer em determinado local. Simples. Pedem ajuda e opinião à sociedade que é quem vai usufruir do que se propôs a fazer. E aí? Eu não fui consultado se queria que construíssem uma ponte com a altura de um prédio de 46 andares para servir de cartão postal à Rede Globo! Fico indignado.
Parece que temos uma necessidade incontida de mostrar para todos que somos (ou achamos que somos) ricos, emergentes, ex-subdesenvolvidos e fazemos coisas assim.
Logo mais escreverei dando os parabéns a São Paulo por ter andado tanto na contra mão da história e finalmente ter estacionado, literalmente, pois logo será impossível andar de carro por aí. SE LIGA!!!

1

de
maio

Feliz ano novo para você

Pois é… Abril se foi e com ele um ano inteiro. Trezentos e sessenta e seis dias para ser mais exato.
Parece agora tão próximo. Tudo ainda tão vivo em minha memória. Mais recente que alguns dias que vieram depois daquele trinta de abril de 2007. Muita euforia, muita dúvida, muita incerteza.
Deixava o Brasil no meio do feriado que caía na terça-feira. Um dia ensolarado, quente, com os amigos à volta. Saí de casa aos prantos após abraçar o Paco, meu amado Amigo, legítimo Vira-Latas, preto como a noite e deixá-lo com uma carinha perplexa a me olhar saindo pela porta da frente. Fui com a Ju comer uma última picanha para ficar com gosto de Brasil na boca.
No aeroporto os amigos e a família à volta. A despedida foi difícil. Senti-me preso após adentrar ao corredor de embarque do aeroporto de Cumbica. Preso nos sentimentos, privado da liberdade de poder olhar para todos que deixava por lá (ou por aí) por mais uma vez, privado de acenar e dar um último (mais um) tchauzinho. Uma solidão imensa que só seria quebrada mais de quarenta dias depois. Estava completamente sozinho. Senti-me completamente desamparado, quase desesperado, muito desnorteado. Por sorte ou não, havia números e setas indicando as direções para que pegasse o avião e voasse até Portugal. Aí, o resto é história, que o próprio blog já conta a vocês.
Porém, fica no ar o que será escrito daqui pra frente… Muita coisa mudou. Não me considero mais o mesmo cara de um ano atrás. Não melhor, não pior, apenas diferente. Muito mais seguro das coisas, mais dono de meus passos. Sempre pensei nas horas de desafios, de encarar alguma coisa mais difícil por aqui: “cara o que você tem a perder? Já fez o mais difícil de tudo, que foi deixar seu país com seus amigos e família prá trás. Passou mais de um mês num país estranho sem a sua alma gêmea que te dá a força que você tanto necessita. Vai lá e encara essa, que maior do que tudo isso, nada será!”. E deu certo. Comparando com isso, tudo o que vivi e enfrentei até agora foi menor. Não menos importante, pois tudo me ensinou. Cada coisa a seu tempo, cada hora uma pequena parte.
Tem vezes que bate uma saudade grande. Nosso clima, nossa gente, nossos costumes. Tudo substituído. Porém, o que seremos sem experimentar? O que seríamos sem arriscar, sem ousar, sem desafiar? Não sou um desbravador, um pioneiro, nada disso. Simplesmente estou fazendo o que deu na telha e buscando a felicidade que todo o mundo busca, que diga-se de passagem, começo a perceber que não está aqui na Escócia, não estava em Portugal, na Itália, nem mesmo no Brasil. Certamente ela está dentro de cada um de nós, em qualquer lugar que estejamos. Happy new year para todos nós!

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