BLOG DO FÁ SAMORI

As experiências, sensações e aventuras de alguém que saiu do Brasil para experimentar o mundo.

23

de
março

Simples Assim

A música sempre foi muito presente em minha vida. Não sou um estudioso, nem tenho uma coleção invejável de CDs. Acredito que quase todos os meus amigos tenham mais CDs que eu.
No entanto desde a adolescência muitas me marcaram e acredito que as sinto até hoje. Na década de oitenta, quando comecei a conhecer alguma coisa sobre música, o rock ainda era muito tocado nas rádios e foi fácil deixar-me encantar. A influência dos primos mais velhos trouxe além de Rush, Led Zeppelin, Beach Boys e tudo o mais que tem entre eles, Pink Floyd. Uma banda que me influencia até hoje na maneira de pensar, ser e encarar a vida.
No plano nacional, sem fazer comparações a nenhuma banda internacional, o rock recomeçava após a ditadura. Palavrões nas músicas do Camisa de Vênus, críticas sociais com os Inocentes, Garotos Podres enfim a possibilidade da livre expressão, que até então não conhecíamos, tomou voz com Legião Urbana, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso, Plebe Rude, Replicantes, Titãs, Ultraje a Rigor, Ira!.
Dessas bandas o Ira!, principalmente com o disco Vivendo e Não Aprendendo foi tema de inúmeras reflexões e pensamentos adolescentes desenrolados e esmiuçados em meu quarto. Não sei se por isso muitas pessoas que me conhecem lembram de mim ao escutar Ira! Como aquela coisa de não saber quem veio primeiro, se o ovo ou a galinha, não sei se realmente fui tão influenciado por eles ou se transpassei tão descaradamente minha admiração pela banda aos que me cercam.
Independentemente disso veio essa semana à cabeça um trecho de uma das músicas deles “… branca neve que nunca senti. Solidão me deixe forte. Talvez resolva meus problemas…”
Fiquei muito emocionado na quinta feira passada ao sentir e ver a neve caindo do céu. Não sei bem explicar porque, mas foi algo forte. Ao sair de casa para retornar ao trabalho, após o almoço, achei que alguma coisa estava estranha: aqueles pingos de chuva estavam grossos e brancos demais. Também não imaginei que fosse neve, pois imaginava que ela caía branquinha em flocos grandes, quase como plumas vindas do céu, e aqueles caíam em certa velocidade. Continuei a andar e ao chegar à loja onde trabalho a “chuva” deu uma apertada. Isso é neve?” perguntei eu, caipira tropical paulistano. Na maior simplicidade e sem o menor espanto Gemma e o rapaz que começou a trabalhar conosco essa semana responderam, “sim” e voltaram a fazer o que estavam fazendo. Nem entrei na loja e fiquei observando a neve se intensificar. Pareciam agora mais com o que eu esperava que parecessem: flocos maiores, levados pelo vento forte. Justamente por causa do vento, pareciam vir de todos os lados. Fui senti-los. Eram como chuva (água que são, não poderiam ser diferente), mas uma chuva mais leve. Gotas mais leves. Fiquei maravilhado.
É incrível a forma que reagimos ante a coisas tão simples na vida. E é bom sabermos que não conhecemos tudo, que temos muito a experimentar. Da mesma forma também é bom deixarmos nos encantar pelas coisas simples e óbvias. Quando foi a última vez que você prestou atenção ao pôr do sol? Onde foi que viu o último arco-íris? Quando foi a última vez que tomou chuva? Que entrou no mar? Que se sujou de barro? Que andou descalço? Que foi empurrado pelo vento? Que nadou num rio?
Aos poucos vamos nos distanciando dessas coisas simples e inventando coisas complicadas para nos preocuparmos. Como já ouvi há muito tempo justamente numa das músicas do Floyd: “Breathe, breathe the air, don’t be afraid to care…”

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