BLOG DO FÁ SAMORI

As experiências, sensações e aventuras de alguém que saiu do Brasil para experimentar o mundo.

7

de
março

Queijos, salames e pensamentos

O cotidiano na loja de queijos I. J. Mellis Cheesemonger tem sido variado. Por vezes é monótono e entediante e sinto-me “robóticamente” trabalhando, desembrulhando queijos, tirando seus bolores e embrulhando-os novamente em filme plástico. Por outras é interessante, pois travo curtos, mas simpáticos diálogos com clientes bem humorados que entram na bela loja em Morningside. Por outras, ainda, revela-se cômico, tragicômico até por conta de minhas dificuldades e confusões lingüísticas.
Um desses episódios divertidos ocorreu há dois dias enquanto atendia a uma senhora de bastante idade. De chapéu, sobretudo, toda arrumada, carregando uma bengala e algumas poucas sacolas de outras lojas das imediações a velha senhora pediu-me para que fatiasse 200g de bacon defumado. Pus a máquina em funcionamento e cortei um certo número de fatias finas. Ao pesar vimos que tinha cortado apenas cento e poucos gramas. Pus a máquina novamente em funcionamento e a senhora, que acompanhava a carne sendo fatiada me pediu para que a parasse pois achava que aquela quantidade de fatias estava de bom tamanho. Ao colocar na balança… exatos 200g. Falei para ela o que pensei que fosse ”puxa a senhora tem uma boa visão. Conseguiu acertar em cheio o peso.” Uma frase boba, mas que faz a diferença para clientes que costumeiramente são atendidos de forma mais fria pela gente do comércio daqui. Ela me deu um grande sorriso e agradeceu muito. Notei que alguma coisa ficara estranha no ar, mas terminei a venda e desejei à simpática senhora um bom dia.
Ao sair, Gemma, a gerente da loja não se continha de tanto rir. Que houve Gemma? O que aconteceu? “Fabio você acabou de dizer para essa senhora que ela tinha lindos olhos!” Isso foi motivo de gargalhadas na hora e depois quando contei o fato para a Ju, já em casa. Realmente não sei exatamente o que falei, mas como no português, no inglês existem certas entonações ou certas pequenas palavras que colocadas em determinado ponto da frase são capazes de grandes mudanças no sentido da mesma. Coisas sutis como a expressão usada pela belga Sarah, que trabalha conosco e também foi motivo de chacota: numa determinada conversa com um cliente ela soltou: “I Will keep my finger crossed!” Gemma interveio da mesma maneira que comigo após o cliente ir embora: “Sarah” – disse ela – “você deve se cuidar para não quebrar o dedo, pois o que acabou de dizer é que você manteria seu dedo torcido!” Ela usou essa expressão para dizer que manteria seus dedos cruzados, como fazendo “figas”.
Tenho observado também a devoção de certos clientes a seus pares (marido ou esposa). Tenho me encantado com os velhinhos que vão à loja. Semana passada atendi uma senhora, muito velhinha, com suas mãos trêmulas, provavelmente devido ao mal de Parkinson. Se demorou e esforçou-se para lembrar qual era o queijo preferido do marido. Após muita reflexão e conversa acabou levando o que ela imaginava ser, um Cheddar inglês maturado. Hoje atendi a um casal muito idoso. De braços dados foi o senhor que fez o pedido: “queremos 150g de bacon, mas por favor, corte fatias de média espessura.” Cortei três fatias de espessuras diferentes para que escolhessem a que melhor lhes agradava. Ficaram encantados. Pediu a seguir, apenas para experimentar, um pouco de salame Milanês. Cortei duas finas fatias e levei para que degustassem. Ele me disse que iriam experimentar em casa e queriam comprar apenas aquelas duas fatias. Fiquei penalizado, embrulhei-as e falei: “guarde em sua bolsa, senhor, antes que minha gerente veja”, e dei um sorriso. Acho que gostaram muito, pois ele começou a conversar comigo e acabou perguntou-me se era italiano. Disse que quase, era brasileiro, mas de família italiana. Começou a contar-me que morou em Roma após a guerra terminar e logo sua esposa foi morar com ele. Notei que ela deveria ter sofrido algum tipo de derrame, pois quase não falava e parecia ter um lado do corpo sem muita coordenação motora. Acabamos conversando um pouco em italiano e nos despedimos. Fiquei imaginando quanta coisa não passaram juntos, quantos anos. E ainda hoje ambos já no final de suas vidas andando de braços dados é alguma coisa que realmente me fez refletir.
E quem vai pensar que vender queijos e salames faz refletir sobre valores e sentimentos?

Arquivado em: Sem categoria I

3 Comentários »

  1. Comentário por Ale — 10 de março de 2008 (13:01)

    Gostei da retomada! Eu e mais alguns “fãs” do seu blog! As impressões e os sentimentos com a viagem estão de volta, que bom… continue assim que agente vai acompanhando daqui.
    Uma coisa que eu posso te dizer é: calma… as vezes parece que estamos perdendo tempo ai embrulhando e desembrulhando queijos e palavras, mas só depois percebemos o quanto isso foi valioso, acho que vc já começou a perceber… e o inglês… só melhorando.
    Aguardo anciosamente o próximo blog!
    Abração!
    Ale

  2. Comentário por Eu — 13 de março de 2008 (2:19)

    Quem escreve com a alma e consegue fazer com que o leitor sinta essa alma é uma pessoa de muita sensibilidade e que sabe colocar as palavras nos lugares exatos, junto com os sentimentos.
    Mais uma vez, PARABÉNS por toda esta leitura fascinante.
    Eu já disse que você deveria começar a pensar em escrever pra valer!

  3. Comentário por Renata — 21 de março de 2008 (22:18)

    Ai Fá, tô até com lágrimas nos olhos… Só a gente entende como essa experiência é grande… o quanto aprendemos em pequenos e rápidos diálogos com os doces clientes da Escócia. Quantas aulas eu tive servindo mesa! Boa sorte querido, é duro, mas no fim vale MUITO a pena! bjs pra vc e Jú

Deixe um comentário

Feed RSS dos comentários deste post. URL de TrackBack

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://fasamori.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o servio e siga participando do Terra Blog.