BLOG DO FÁ SAMORI

As experiências, sensações e aventuras de alguém que saiu do Brasil para experimentar o mundo.

21

de
fevereiro

Por que morar no Brasil?

Hoje fui tomado por uma pergunta inesperada: “por que você gosta de morar no Brasil?”
A autora da pergunta foi Gemma. E começo por aqui para sintonizar a todos o que está rolando por aqui. Os bem engraçadinhos já podem parar de pensar que é uma omelete ou uma gemada. Gracinhas à parte, comecei a trabalhar na última terça-feira, 19/02/08. Aceitei encarar o anúncio pendurado à porta de uma loja de queijos a menos de 50m do apartamento que alugamos, entreguei meu currículo em mãos, conversei um pouco e me apresentei profissional e pessoalmente. Vinte minutos após deixar a loja meu celular tocava com a resposta positiva a respeito do emprego.
Digo que aceitei encarar, pois gostaria e ainda busco uma ocupação mais promissora, que pague mais e que seja mais próxima da área que estudei e que tenho mais afinidade: meio ambiente, turismo, ecologia. Porém, mais vale um pássaro na mão que dois voando e assim voei para a I. J. Mellis Cheese Shop. Nem sabia, mas é uma rede com seis lojas próprias e uma organização razoável.
E o trabalho não é dos piores: trabalhar em meio a queijos finos franceses, italianos, e do Reino Unido, em meio a produtos de Parma, como aceto balsâmico, prosciuto crudo, sopas francesas, geléias inglesas, pães finos, chás, biscoitos, antepastos, enfim, uma perdição de sabores e calorias, tem se mostrado uma coisa interessante. Atendo aos clientes no balcão e como a loja é pequena, também divido responsabilidades em abrir e fechar o caixa, limpeza da loja, disposição de produtos na vitrine e nas prateleiras, coisas assim. Ainda estou meio perdido, logicamente, em meio a mais de 50 tipos de queijos apenas no balcão. Mas o melhor é conhecer bastante a respeito de um mundo aparentemente à parte.
A Ju adorou meu emprego: tenho chegado todos os dias com uma novidade: o primeiro dia foi uma lata de chá africano (não iria ser mais vendida pois a data de validade já expirou), noutro foi uma lasca de queijo de cabra, uma delícia, hoje uma baguete (que mais parece um pão italiano – delicioso).
E, então, hoje, ao conversar com Gemma que é a gerente da loja, muito simpática e solícita veio a pergunta: “por que você gosta de morar no Brasil?” Fiquei sem palavras. Lembrei do filme Ilha das Flores (aliás recomendo a todos que vejam esse curta gaúcho com roteiro de Jorge Furtado, de 1989), não por nada relacionado às nossas diferenças e mazelas sociais que vivemos no Brasil – muito bem retratadas no filme, que ainda se mantém atual – e que são quase incompreensíveis para quem nunca saiu daqui, mas pela última frase desse fantástico filme, que diz: “Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”* Acho que não tenho como definir porque gosto de viver por essas terras quentes. Comecei tentando falar do clima, pois aqui o frio é muito, mas lembrei que por demasiadas vezes reclamei muito do calor insuportável daí. Debandei para nossa geografia e nossa natureza, mas lembrei do desmatamento. Falei das pessoas que são boas e acolhedoras e lembrei da violência. Percebi-me reticente. Realmente fiquei confuso. Mas pensando agora, com mais calma e reflexão, talvez tentasse explicar a coisa da seguinte maneira: “nós temos lá no Brasil uma coisa que se chama calor humano. Não que vocês não tenham aqui, até que aqui nessa cidade tenho encontrado isso, mas lá tem mais.” Acho que esse seria um bom começo. O fim da discussão não sei onde seria, mas certamente estaria muito, muito longe.

* retirado de : http://www.casacinepoa.com.br/site_antigo/port/roteiros/ilhafl2.txt

15

de
fevereiro

Recolocando ordem na casa

Olá a todos os leitores. Há muito não escrevo, mas acredito ter a perfeita justificativa para tanto: pus o blog de “férias” assim como eu. Sim, as férias vão entre aspas, pois mesmo tendo trabalhado duro durante o ano anterior, no total trabalhei apenas quatro ou cinco meses. Considero isso mais para férias que para trabalho. Enfim, só prá atualizar e dizer que estou por aqui de volta, aqui vai uma breve retrospectiva do que foi e será ainda relatado aqui no blog: cheguei no princípio de maio em Londres, a Ju, minha Linda Companheira, chegou na metade de junho. Estivemos por aquela cidade até metade de agosto, quando nos mudamos para as Highlands na Escócia. Permanecemos por lá até novembro, quando voltamos para passar um mês (de despedida) em Londres. Viajamos como turistas durante oito dias por Lisboa e Alentejo, obviamente em Portugal e retornamos para as festas e um pouco de calor para o Brasil. Embarcamos agora para a Escócia para viver um pouco em sua desconhecida e linda capital, Edimburgo. Até o último mês em Londres tudo está relatado aqui no blog. A partir daí, começo agora. Espero que gostem.

15

de
fevereiro

A Nova Cara do Blog

A nova cara do Blog é na verdade antiga, como você bem deve ter notado. Escolhi essa cara não por estar preso ao passado ou por estar melancólico, já que se passaram vários dias depois que saímos novamente do Brasil. Nada disso. Achei simplesmente que essa nova capa tem tudo a ver com o local onde estamos agora.
Edimburgo, a capital da Escócia é uma cidade linda. Linda por ser pequena (tem cerca de 440.000 habitantes), linda pela gente simpática que habita suas casas e que sorri numa simples troca de olhar, linda por suas casas e monumentos antigos e esse é o link para a nova cara do Blog.
A parte que até agora mais me intrigou dessa cidade é chamada de Old Town, ou seja, centro antigo. Quando o pessoal fala de antigüidade por aqui não brinca. Antigo aqui refere-se à períodos da idade média para trás. Assim, toda essa região do Old Town é medieval, com suas ruas estreitas, construções antiqüíssimas apinhadas, becos, portões, portinholas, e castelos.
Achei o “skin” perfeito para esse momento. Enjoy it!

15

de
fevereiro

Retornos e Re-retornos

Como o Blog não é novidade – e sim uma continuação – acho que nada mais justo que retratar, ou melhor, descrever um pouco do que foi todo esse período de expectativas que rolou desde fins de novembro até agora, fevereiro; saindo de Londres, indo a Portugal, voltando ao Brasil, retornando ao Reino Unido e experimentando novamente a sensação de começar tudo do zero numa cidade desconhecida – Edimburgo. Assim peguei uns trechos de textos escritos que não foram publicados no Blog e costurei-os com pensamentos novos, cortei-os com novas sensações, aparei com ansiedades e tingi com esperanças. Segue o Blog…

A medida que o tempo ia passando no frio outono de Londres sentia nossa ansiedade aumentando.
Muitos foram os conselhos para que voltássemos ao Brasil assim que desse. “Isso recarrega suas baterias” dizia um, “após estarem no Brasil e matar a saudade de todos terão mais disposição para o que der e vier no Reino Unido” dizia outro. Assim faríamos.
Aproveitando a passagem ida e volta comprada no Brasil passaríamos “férias” por lá (ou por aí). O programado era voltar ao UK em fevereiro, mas isso era outra história.

Naquele distante outono e longo mês de novembro tecemos, criamos, montamos mundos e fundos a respeito do que encontraríamos no Brasil. Acreditávamos estarmos redescobrindo as pessoas, os lugares, as belas paisagens brasileiras.
Tudo era saudade. Nem mais nem menos do que o que esperávamos, porém, diferente. Saudade. Difícil de explicar, difícil de sentir, difícil de entender e perceber o que era saudade, o que era real, o que era expectativa, o que era normal, o que se modificou o que foi decepção o que é aprendizado.
Digo isso, pois chegar e ser recebido por muitos no aeroporto, reunir os amigos queridos em nossa casa, passar o natal com a família, viajar com amigos para uma praia afastada de badalação no réveillon foi maravilhoso.
Alguma coisa, porém estava diferente. Alguma coisa não se encaixava. Nós estávamos diferentes. Na verdade nem isso era: nossas expectativas estavam totalmente desconexas com a realidade que encontramos.
Foi de certa forma angustiante ver chegando o dia de ir embora da minha terra e não ter encontrado a harmonia que tanto queria encontrar, que tanto criei – na verdade – enquanto estava fora.
Porém chegou e chegou rápido, como uma onda enorme que te pega por não ter tido braços suficientes para remar e escapar de sua enorme massa d’água.
Tudo, acredito, foi um grande aprendizado. Como dito por uma amiga: “quando você viaja você morre” devido à ausência. E outra: a vida no Brasil continuou. As pessoas por mais amigas que fossem, por mais família que fossem tiveram experiências, tiveram novos contatos, viveram situações que as fizeram crescer ou no mínimo se modificarem.
Nossa expectativa foi um erro, marinheiros de primeira viagem que fomos. Talvez tenhamos imaginado com egoísmo que tudo estaria exatamente da mesma maneira que estava quando viemos para Londres na primeira vez.
Todo esse processo talvez não tenha recarregado nossas baterias como (também) imaginávamos, porém acho que servirá para que nas próximas vezes que retornarmos termos mais cuidados conosco e principalmente com os outros, nossos queridos “entes” (amigos, familiares, etc.) que nos cercam e fizeram e fazem a vida ser para nós o que realmente é, linda.

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