BLOG DO FÁ SAMORI

As experiências, sensações e aventuras de alguém que saiu do Brasil para experimentar o mundo.

9

de
dezembro

Family house II

Fomos os cinco. Ao chegarmos Jag estacionou e entramos num local que poderia muito bem ser uma loja ou um restaurante. Nenhum deus, nenhuma estátua, nenhum incenso. É certo que o local está em fase final de construção, mas acredito que a decoração não o diferenciará muito do que é atualmente.
Entramos num grande hall frio, com o piso inacabado em granito negro e percebemos que ali era o lugar de onde não se poderia prosseguir com sapatos, pois havia algumas dezenas de pares no chão e em uma prateleira de madeira. Descalços, vestimos nossos lenços, echarpes e véus e adentramos por uma porta de madeira e vidro. Um salão grande, com carpetes vermelhos no chão, paredes nuas, brancas e muitas crianças brincando. Algumas mulheres conversavam descontraidamente e lá no fundo a cozinha. Jag, Jaspreed e Shatvee entraram no salão de orações que situava-se atrás de outra porta de madeira e vitral à nossa esquerda e nós os seguimos.
Era um salão grande, bem iluminado, de cerca de uns 15 X 30 metros. Mulheres sentavam no chão acarpetado ao lado esquerdo e os homens ao lado direito. Realmente entendi o sentido do riso de Jaspreed quando perguntei sobre as cores do meu lenço. Alguns homens usavam turbantes cor de laranja em tons muito vivos. As mulheres combinavam em seus vestidos e véus, além de brilhos, cores como azul e rosa, azul e laranja, vermelho e dourado. Todas as cores eram muito vivas. No centro do salão, dividindo-o ao meio em seu comprimento, ficava uma espécie de altar onde estava sentado um homem que lia um texto em pandjabee, uma das línguas faladas na Índia (desculpem-me, mas não estou certo da grafia do nome). Os seek não possuem nenhum tipo de hierarquia em sua igreja, de tal modo que a pessoa que lê o Livro Sagrado pode ser qualquer uma. No entanto, ficamos sabendo que esse cidadão que lia o livro tem isso como a sua profissão, como um padre. Viaja de templos em templos e (com o perdão da expressão) “reza a missa” a troco de comida e abrigo para a sua família. De tempos em tempos ele pegava um tipo de espanador de plumas muito leves e brancas e abanava por todo o altar. O texto era lido do Livro Sagrado, como mencionado. Um livro escrito pelos dez gurus da religião seek. Esse livro é coberto e transportado com todo o cuidado ao final da seção de orações. O tom da leitura que ele fazia era quase cantado e em certos trechos todos no salão acompanhavam o que era lido, como se já soubessem aquela passagem. À direita do salão ficava posicionado um telão que ia mostrando uma apresentação de slides em Power Point, servindo como uma legenda em três línguas ou formas: uma com a escrita pandjabee e o que provavelmente era seu próprio alfabeto, outra com o texto lido no livro sem tradução, porém, em alfabeto ocidental e outra, a tradução de tudo aquilo para o inglês. High tech esse templo, não?
As orações, como explicado momentos antes por Jagrad, não dizem muita coisa por si próprias. Fazem parte de um contexto muito mais amplo. Dizem coisas como “sempre siga a palavra do profeta”, “sempre retribua a bondade com bondade”, etc..
Em alguns momentos todos se levantavam e depois de alguns trechos de leitura, tornavam a se sentar. Sempre acompanhados pelos ocidentais Ju e Fa, meio perdidos e desajeitados. A leitura era também intercalada por cânticos, outra forma de oração. Os cânticos eram acompanhados por músicos com instrumentos como chocalhos e tambores, nada de cítara.
Num determinado momento alguns homens (a grande maioria deles usava barbas como a de Jagrad ou até maiores! Brinquei com a Ju dizendo: se você quer saber alguma coisa sobre barba, pergunte a esses caras) apanharam bacias de alumínio e saíram pelo salão distribuindo alguma coisa que as pessoas pegavam com reverência e comiam. Um deles chegou até mim e fiz o mesmo: abaixei a cabeça e estendi as mãos em forma de concha acima dela. Senti em minha mão uma pasta gordurosa. Olhei para a massa amarronzada e acredito que tenha feito uma cara estranha, pois Jagrad veio até mim e falou: “não há problema isso é apenas manteiga, farinha e açúcar.” Comi e gostei, tinha gosto de massa de biscoito. Acabava de ser abençoado. O prashad era o que acabara de comer e é interpretado como uma bênção.
Isso tudo levou cerca de 30 minutos, quando Jagrad, ao fim de uma música fez sinal para que o seguíssemos. “Estou morrendo de fome”, disse ele ao sair do salão por uma porta próxima à cozinha. Num sistema de bandejão entramos numa pequena fila, apanhamos nossas bandejas, um copo de alumínio e uma colher cada um e fomos servidos por cinco comidas diferentes. A única coisa que pude diferenciar e entender o que era, era o pão muito parecido com pão sírio, porém mole. (continua)

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