BLOG DO FÁ SAMORI

As experiências, sensações e aventuras de alguém que saiu do Brasil para experimentar o mundo.

9

de
dezembro

Family house I

No início imaginamos que Jag, dono da segunda casa onde morávamos em Londres, havia recém ingressado no mercado “buy to let”, uma modalidade de investimento na qual as pessoas compram casas para alugá-las. Ele havia acabado de comprar a casa onde alugamos o quarto e parecia que estava preparando-a para suportar mais gente, pois ele próprio ia quase todos os dias à casa para arrumar qualquer coisa nos dois cômodos vazios no andar inferior.
De descendência indiana, dono de uma enorme barba preta e sempre de turbante, Jag ou Jagrad freqüentemente ia à casa acompanhado da família: é casado com Jaspreed (apelido Meeta) e têm um filho, Shatvee de dois anos, além do labrador Solom, já apresentado aqui no blog.
No início foram bastante solícitos e nos emprestaram roupas de cama e um edredom de penas de ganso confortabilíssimo e quente, pois nossas roupas de cama, toalhas e edredom estavam ainda com a complicadíssima e atrapalhadíssima Sandra O’Brian, em Golders Green.
Aos poucos, de certa forma acabamos nos tornando amigos. Digo “de certa forma”, pois o conceito de amizade praticado por aqui (pelo menos o que vivenciamos) é bastante distante do que vivemos no Brasil. As coisas por aqui parecem ser muito mais contidas, mais reservadas, mesmo sendo uma família de origem indiana. Agora fiquei confuso, me perdoe, pois veio à minha cabeça se justamente por serem indianos isso ocorre. Bom, deixo isso pairando no ar.
A nossa relação com eles se fortificou principalmente a partir do momento em que nos convidaram para irmos juntos a um templo Seek.
E você me pergunta: “mas o que vem a ser um Templo Seek?”
Seek é uma religião indiana que prega a igualdade entre os homens. Os templos Seek podem ser freqüentados por qualquer um. Espalhados pelo mundo funcionam da mesma maneira em qualquer lugar: quem quiser ir vai e cumpre o papel que melhor lhe convenha, ou não. A igualdade é exercida no preparo, distribuição e degustação de comida (indiana e vegetariana, claro), na limpeza das panelas e pratos e tudo o que tange ao assunto. Obviamente há também um local para preces e orações. Como a comida é distribuída absolutamente de graça, pobreza e riqueza, bem como qualquer outra diferença social existente fica reduzida a nada dentro do templo.
Nunca havíamos ouvido falar de um Seek Temple e ficamos muito surpresos com o convite: “o que devemos usar? Como devemos nos portar? O que não podemos fazer? O que podemos? Temos que pagar?” perguntamos. “Façam o que quiserem” foi a resposta de Jaspreed em meio a risos, bem mais expansiva que Jagrad. “Se quiserem nos acompanhar nas orações ótimo, se preferirem ficar de fora do recinto de orações, também não há problemas. Se quiserem doar qualquer coisa, ótimo, mas também se não quiserem não há necessidade alguma. Apenas uma coisa: terão que tirar os sapatos e cobrir as cabeças.”
Subimos para pegarmos o necessário em nosso quarto: a Ju pegou uma longa echarpe e eu um lenço que uso para pedalar, mas que achei melhor perguntar a respeito das cores do mesmo antes de ir. Ela riu e disse-me que nada é colorido o bastante para um templo Seek. (continua)

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