BLOG DO FÁ SAMORI

As experiências, sensações e aventuras de alguém que saiu do Brasil para experimentar o mundo.

9

de
dezembro

Family house I

No início imaginamos que Jag, dono da segunda casa onde morávamos em Londres, havia recém ingressado no mercado “buy to let”, uma modalidade de investimento na qual as pessoas compram casas para alugá-las. Ele havia acabado de comprar a casa onde alugamos o quarto e parecia que estava preparando-a para suportar mais gente, pois ele próprio ia quase todos os dias à casa para arrumar qualquer coisa nos dois cômodos vazios no andar inferior.
De descendência indiana, dono de uma enorme barba preta e sempre de turbante, Jag ou Jagrad freqüentemente ia à casa acompanhado da família: é casado com Jaspreed (apelido Meeta) e têm um filho, Shatvee de dois anos, além do labrador Solom, já apresentado aqui no blog.
No início foram bastante solícitos e nos emprestaram roupas de cama e um edredom de penas de ganso confortabilíssimo e quente, pois nossas roupas de cama, toalhas e edredom estavam ainda com a complicadíssima e atrapalhadíssima Sandra O’Brian, em Golders Green.
Aos poucos, de certa forma acabamos nos tornando amigos. Digo “de certa forma”, pois o conceito de amizade praticado por aqui (pelo menos o que vivenciamos) é bastante distante do que vivemos no Brasil. As coisas por aqui parecem ser muito mais contidas, mais reservadas, mesmo sendo uma família de origem indiana. Agora fiquei confuso, me perdoe, pois veio à minha cabeça se justamente por serem indianos isso ocorre. Bom, deixo isso pairando no ar.
A nossa relação com eles se fortificou principalmente a partir do momento em que nos convidaram para irmos juntos a um templo Seek.
E você me pergunta: “mas o que vem a ser um Templo Seek?”
Seek é uma religião indiana que prega a igualdade entre os homens. Os templos Seek podem ser freqüentados por qualquer um. Espalhados pelo mundo funcionam da mesma maneira em qualquer lugar: quem quiser ir vai e cumpre o papel que melhor lhe convenha, ou não. A igualdade é exercida no preparo, distribuição e degustação de comida (indiana e vegetariana, claro), na limpeza das panelas e pratos e tudo o que tange ao assunto. Obviamente há também um local para preces e orações. Como a comida é distribuída absolutamente de graça, pobreza e riqueza, bem como qualquer outra diferença social existente fica reduzida a nada dentro do templo.
Nunca havíamos ouvido falar de um Seek Temple e ficamos muito surpresos com o convite: “o que devemos usar? Como devemos nos portar? O que não podemos fazer? O que podemos? Temos que pagar?” perguntamos. “Façam o que quiserem” foi a resposta de Jaspreed em meio a risos, bem mais expansiva que Jagrad. “Se quiserem nos acompanhar nas orações ótimo, se preferirem ficar de fora do recinto de orações, também não há problemas. Se quiserem doar qualquer coisa, ótimo, mas também se não quiserem não há necessidade alguma. Apenas uma coisa: terão que tirar os sapatos e cobrir as cabeças.”
Subimos para pegarmos o necessário em nosso quarto: a Ju pegou uma longa echarpe e eu um lenço que uso para pedalar, mas que achei melhor perguntar a respeito das cores do mesmo antes de ir. Ela riu e disse-me que nada é colorido o bastante para um templo Seek. (continua)

9

de
dezembro

Family house II

Fomos os cinco. Ao chegarmos Jag estacionou e entramos num local que poderia muito bem ser uma loja ou um restaurante. Nenhum deus, nenhuma estátua, nenhum incenso. É certo que o local está em fase final de construção, mas acredito que a decoração não o diferenciará muito do que é atualmente.
Entramos num grande hall frio, com o piso inacabado em granito negro e percebemos que ali era o lugar de onde não se poderia prosseguir com sapatos, pois havia algumas dezenas de pares no chão e em uma prateleira de madeira. Descalços, vestimos nossos lenços, echarpes e véus e adentramos por uma porta de madeira e vidro. Um salão grande, com carpetes vermelhos no chão, paredes nuas, brancas e muitas crianças brincando. Algumas mulheres conversavam descontraidamente e lá no fundo a cozinha. Jag, Jaspreed e Shatvee entraram no salão de orações que situava-se atrás de outra porta de madeira e vitral à nossa esquerda e nós os seguimos.
Era um salão grande, bem iluminado, de cerca de uns 15 X 30 metros. Mulheres sentavam no chão acarpetado ao lado esquerdo e os homens ao lado direito. Realmente entendi o sentido do riso de Jaspreed quando perguntei sobre as cores do meu lenço. Alguns homens usavam turbantes cor de laranja em tons muito vivos. As mulheres combinavam em seus vestidos e véus, além de brilhos, cores como azul e rosa, azul e laranja, vermelho e dourado. Todas as cores eram muito vivas. No centro do salão, dividindo-o ao meio em seu comprimento, ficava uma espécie de altar onde estava sentado um homem que lia um texto em pandjabee, uma das línguas faladas na Índia (desculpem-me, mas não estou certo da grafia do nome). Os seek não possuem nenhum tipo de hierarquia em sua igreja, de tal modo que a pessoa que lê o Livro Sagrado pode ser qualquer uma. No entanto, ficamos sabendo que esse cidadão que lia o livro tem isso como a sua profissão, como um padre. Viaja de templos em templos e (com o perdão da expressão) “reza a missa” a troco de comida e abrigo para a sua família. De tempos em tempos ele pegava um tipo de espanador de plumas muito leves e brancas e abanava por todo o altar. O texto era lido do Livro Sagrado, como mencionado. Um livro escrito pelos dez gurus da religião seek. Esse livro é coberto e transportado com todo o cuidado ao final da seção de orações. O tom da leitura que ele fazia era quase cantado e em certos trechos todos no salão acompanhavam o que era lido, como se já soubessem aquela passagem. À direita do salão ficava posicionado um telão que ia mostrando uma apresentação de slides em Power Point, servindo como uma legenda em três línguas ou formas: uma com a escrita pandjabee e o que provavelmente era seu próprio alfabeto, outra com o texto lido no livro sem tradução, porém, em alfabeto ocidental e outra, a tradução de tudo aquilo para o inglês. High tech esse templo, não?
As orações, como explicado momentos antes por Jagrad, não dizem muita coisa por si próprias. Fazem parte de um contexto muito mais amplo. Dizem coisas como “sempre siga a palavra do profeta”, “sempre retribua a bondade com bondade”, etc..
Em alguns momentos todos se levantavam e depois de alguns trechos de leitura, tornavam a se sentar. Sempre acompanhados pelos ocidentais Ju e Fa, meio perdidos e desajeitados. A leitura era também intercalada por cânticos, outra forma de oração. Os cânticos eram acompanhados por músicos com instrumentos como chocalhos e tambores, nada de cítara.
Num determinado momento alguns homens (a grande maioria deles usava barbas como a de Jagrad ou até maiores! Brinquei com a Ju dizendo: se você quer saber alguma coisa sobre barba, pergunte a esses caras) apanharam bacias de alumínio e saíram pelo salão distribuindo alguma coisa que as pessoas pegavam com reverência e comiam. Um deles chegou até mim e fiz o mesmo: abaixei a cabeça e estendi as mãos em forma de concha acima dela. Senti em minha mão uma pasta gordurosa. Olhei para a massa amarronzada e acredito que tenha feito uma cara estranha, pois Jagrad veio até mim e falou: “não há problema isso é apenas manteiga, farinha e açúcar.” Comi e gostei, tinha gosto de massa de biscoito. Acabava de ser abençoado. O prashad era o que acabara de comer e é interpretado como uma bênção.
Isso tudo levou cerca de 30 minutos, quando Jagrad, ao fim de uma música fez sinal para que o seguíssemos. “Estou morrendo de fome”, disse ele ao sair do salão por uma porta próxima à cozinha. Num sistema de bandejão entramos numa pequena fila, apanhamos nossas bandejas, um copo de alumínio e uma colher cada um e fomos servidos por cinco comidas diferentes. A única coisa que pude diferenciar e entender o que era, era o pão muito parecido com pão sírio, porém mole. (continua)

9

de
dezembro

Family house III

Sentamos a uma das longas mesas do fundo daquele salão. Olhei para a bandeja e não tinha idéia por onde começar. Todas as comidas se pareciam na consistência pastosa, porém na cor se diferenciavam. Uma continha pedaços de vegetais maiores e tinha uma cor marrom-esverdeada dada pelo molho curry. Outra possuía quase a mesma cor, porém, mais avermelhada e sem os grandes pedaços de vegetais. Duas eram pastas brancas. Peguei a colher e experimentei uma das massa brancas. Um gosto azedo e ao mesmo tempo adstringente misturado com o que parecia ser coentro inundou minha boca. Foi difícil de engolir e pensei que se todas as comidas tivessem sabores parecidos iria sair de lá com fome. Experimentei a dos pedaços grandes de vegetais e melhorou 200%. É certo que o molho curry e o sabor apimentado foram as primeiras coisas a se sentir. Segui a linha e me mantive longe das pastas brancas e experimentei a terceira pasta, a mais avermelhada. Era saborosa, melhor que a segunda. Notei que Jaspreed e Jagrad comiam tudo com o pão. Olhei para a Ju que parecia estar gostando. Como ela, meio desajeitado tentava pôr o que queria sobre o pão mole. Pouca coisa se mantinha sobre o pequeno pedaço que rasgava com a mão. Jaspreed deve ter percebido nossa falta de jeito e interveio. Mostrou que não há necessidade de usar a colher. Ela serviria apenas para a sobremesa – a outra pasta branca, que para a minha grata surpresa era pudim de arroz doce. Faz-se com o pão um tipo de concha rasgando-se até a metade um pequeno pedaço e dobrando-o.
À medida que íamos comendo a pimenta ia tomando força e recorri com mais freqüência ao copo d’água. Jagrad deve ter percebido e sutilmente falou que aquela pasta branca (a primeira que havia comido e achado horrível) é feita de iogurte para se comer juntamente com as comidas muito apimentadas e cortar-lhes os efeitos picantes. Ah, que bom! Agora sim tudo fazia sentido, sem falar nos sabores que eram muitíssimo mais agradáveis dessa maneira.
No fim das contas tivemos uma ótima refeição. Nos alimentamos não apenas da comida que nos deram, mas de novas experiências, conhecimentos e de algo que não se pode pagar, não porque é proibido, mas porque não há valor no mundo que justifique: um bom relacionamento e uma boa compreensão de pessoas que até há pouco tempo eram tão estranhas a nós. Ao contrário do que aprendemos a fazer desde quando chegamos por aqui, agora estávamos tirando alguns tijolos dos nossos muros.

9

de
dezembro

Gosto nao se discute

Ter uma propriedade em Londres é algo muito valioso. Não apenas pelo valor do imóvel em si, mas porque é um bom investimento. O mercado imobiliário londrino vem se expandindo a passos largos há cerca de dez anos. A especulação imobiliária é grande e os preços, por conta disso são bastante elevados. Quem compra uma casa por aqui ou quer fugir do alto preço do aluguel, ou quer fazer o que eles chamam de “buy to let” (comprar para alugar) ou, então ambos, alugando um ou dois quartos da própria casa.
A casa onde alugamos o quarto para ficarmos durante o mês entre o trabalho em Mallaig e a volta ao Brasil é um sobrado típico das áreas mais afastadas do centro londrino, com uma grande área de quintal nos fundos (que é maior que a área construída da casa). Entra-se, obviamente pela porta da frente, situada à esquerda da casa e que dá num pequeno hall de onde parte a escada para o andar superior, do lado esquerdo. Ainda do hall tem-se acesso à cozinha, que já delimita o fim (aos fundos) da área construída e outros dois cômodos à direita: um ao lado da cozinha, portanto nos fundos da casa e outro, o que seria a sala da frente. Todos fechados e bem delimitados por paredes e portas.
No andar superior, assim que sobe-se a estreita escada, à esquerda há o único banheiro da casa, com chuveiro, banheira e sanitário, que situa-se sobre a cozinha; á frente tem-se um quarto situado sobre o cômodo inferior dos fundos; um pouco à direita um quarto (o que alugamos) que situa-se sobre a “sala da frente” e totalmente à direita um outro quarto, localizado sobre o hall de entrada. Todos os pisos são feitos de madeira, porém, em todos os lugares da casa há revestimento de carpete, inclusive no banheiro. Na cozinha, porém, o piso de madeira é revestido por um tipo de lajota feita de plástico, acredito que PVC.
Em todos os ambientes há enormes janelas, sendo que todas as voltadas para os fundos da casa (cozinha, cômodo do fundo, banheiro e quarto do fundo) têm as vistas mais privilegiadas, d’onde avistamos ao longe Canary Warf, muitas casas, a linha do trem e todo o quintal. A vista dos cômodos da frente dá para a rua e é bloqueada pelas casas do outro lado. Se não fossem elas teríamos uma maravilhosa vista do parque Lesnes Abbey, que conserva uma imensa área verde e situa-se aos fundos daquelas casas.
As cores da casa chamam a atenção: por fora nada de mais, um amarelinnho discreto. Por dentro, nos ambientes comuns, a mesma cor, porém, com o revestimento de papel de parede de uma cor ocre, quase castanha e com texturas até a altura de cerca de 1 metro do chão. O carpete é quase da mesma cor do papel de parede, porém um pouco mais claro. Nos quartos isso muda: no nosso o carpete é lilás e faz conjunto com as paredes da mesma cor, porém, um pouco mais claras. Os armários amarelos com puxadores das portas e gavetas lilases dão o tom, digamos “new wave” ao ambiente. Os outros quartos são piores: carpetes cor-de-rosa fazem conjunto com as paredes do mesmo tom, porém, são ladeados por rodapés rosa-choque e os armários são lilases. Um horror!
Não é uma casa pequena, é uma casa boa e quente: todas as janelas possuem duplo vidro e vedam a entrada de vento, todos os ambientes possuem aquecedores daqueles que funcionam com a passagem de água quente. Apesar das cores e da falta de um sofá para sentar-se e encostar confortavelmente e de uma mesa para se fazer as refeições é um local confortável e o valor que pagamos é bem em conta, comparando, obviamente com os imóveis daqui: oitenta e cinco pounds por semana.
Ah claro, ia-me esquecendo, pois acho que já estou acostumando: todas as portas, sem exceção, abrem para o centro dos ambientes. Acho que vou modificar as portas da nossa casa no Brasil para não estranhar! Ô coisinha de inglês!

9

de
dezembro

Londres again

Chegamos em Londres no dia 07/11 às 21:50h. Estávamos cansados. A primeira parte da viagem de Fort William até a capital do Reino Unido foi muito tranqüila: com sol, pudemos ver lindas paisagens e tínhamos muito espaço, uma vez que o trem não estava cheio. A segunda parte, porém, de Glasgow até Londres chegou a ser até desagradável. Trocamos de trem em Glasgow e pegamos um trem da Virgin, que mais parecia um avião. De certo era muito veloz, muito silencioso e parecia que flutuava sobre os trilhos, porém, era cheio de gente e com bancos muito próximos uns dos outros. O lugar para a bagagem era minúsculo e como tínhamos aquele monte de coisas conosco, o jeito foi largarmos a mala grande e minha bicicleta na frente de duas portas. Isso fazia com que em todas as paradas tivéssemos que levantar para ver se a bagagem não havia caído, se não atrapalhava demais o caminho de quem precisava sair ou entrar, ou ainda, se ninguém a pegava “por engano”.
Em Londres chegamos em Euston e precisávamos pegar um metrô até uma outra estação de trem, Charing Cross e finalmente um último trem até as proximidades da casa que havíamos alugado por telefone.
Estava bastante preocupado, pois a casa situava-se muito afastada do centro (zona 4) e não sabíamos quantas pessoas moravam por lá, nem nada a respeito. A única coisa que sabíamos é que teríamos um quarto de casal. Confesso que desconfiava que até cama não teríamos.
Chegamos à estação de Abbey Wood quase à meia noite. Jag, o dono da casa estaria por lá para nos receber e levar-nos até sua propriedade. Através do celular consegui encontrar a figura: um cara de turbante e uma gigantesca barba era quem falava comigo e dava as direções para que o achássemos. Por sorte ele possuía um Renault Scenic e pudemos colocar tudo o que transportávamos dentro. Nem seu cachorro, Solom, um lindo e brincalhão labrador preto teve que se apertar muito.
De carro até a casa foi muito rápido, cerca de 3 minutos. Uma casa quase em ordem, habitada por dois caras da África do Sul Hein e Steve e Demian, um irlandês. Digo quase em ordem pois era notório que Jag estava alugando uma casa pela primeira vez: embalagens de microondas e de uma keter (um tipo de chaleira elétrica que existe em todas as casas e hotéis por aqui) estavam jogadas no chão de um dos cômodos do andar de baixo, o mesmo onde Hein tentava fazer funcionar uma televisa aparentemente novinha em folha apoiada sobre uma mesa improvisada. Na cozinha bem decorada com armários por todos os lados a geladeira não funcionava e os caras se viravam com os perecíveis pondo-os do lado de fora, nos fundos da casa (a temperatura já estava bem baixa). “No fim de semana trarei uma nova geladeira, não se preocupem”, disse Jag. Além da máquina de lavar roupa (que normalmente nas casas daqui ficam na cozinha, mesmo), ainda com os adesivos do fabricante, havia também dois pratos, duas cumbucas de plástico, uma de louça, três canecas uns três garfos e umas cinco facas. E isso era tudo.
Em nosso quarto, diversos armários embutidos, a cama e na grande janela que dava de frente para a rua e para as casas do lado oposto, nenhuma cortina. Até que estava bom pelo que esperávamos. O que viria pela frente ainda era incógnito: como será esse mês em Londres? Será que nossas coisas com a Sandra estão em ordem? Será que vamos gastar uma fortuna em transporte morando tão longe?

2

de
dezembro

Vida de Turista

A manhã do dia cinco de novembro de 2007 foi diferente das manhãs dos últimos três meses, ou por que não dizer, dos últimos seis meses. Acordávamos cedo para sermos turistas.
Saímos após o café da manhã reforçado do West Highland Hotel. Uma passada na biblioteca para acessar a internet e às 10:35h em ponto partíamos no trem em direção a Fort William. Fomos até lá com a Monique, que se despediu de nós e seguiu no mesmo trem até Glasgow. Muita bagagem na mão. Apesar de sermos cicloturistas, exageramos na quantidade de coisas que levamos para Mallaig. Uma mala grande, muito grande e pesadíssima, uma mochila grande, uma mochila pequena e minha bicicleta dobrável. Se soubéssemos de antemão o que realmente faríamos na pequena Mallaig, quais seriam nossas opções de lazer, etc., certamente seríamos capazes de transportar tudo o que necessitávamos em apenas uma mochila, porém, não sabíamos. E outros agravantes: tínhamos de tirar a maior quantidade de coisas possíveis do apartamento da Sandra (pois não sabíamos se voltaríamos ou se ela continuaria morando por lá) e fizemos tudo às pressas, com dois dias para pensarmos em tudo e partir para Mallaig.
Ficamos muito mais à vontade quando deixamos a grande mala e a bicicleta no guarda volumes da estação de Fort William. Assim pudemos, com mais tranqüilidade, procurar e achar um local para nos hospedarmos aquela noite.
Fort William é uma cidade sem muitos atrativos, porém, maior que Mallaig, o que a tornou instantaneamente interessante para nós, desacostumados com “cidades grandes”.
Nosso planejamento era o seguinte: ficarmos uma noite por lá, alugarmos um carro no dia seguinte, percorrermos as Highlands e conhecermos o que achássemos de interessante pelos caminhos, passarmos a noite seguinte na estrada (num dos diversos pontos para estacionar e passar a noite) e voltarmos na manhã do dia sete à Fort William, de onde pegaríamos o trem para Londres. E assim fizemos.
Alugamos um Ford Ka bonitinho, bem novinho e lotamos o pequenino porta-malas e o banco traseiro com todas as nossas tralhas (o guarda-volumes era apenas por 24 horas). A primeira coisa a se notar e estranhar: claro, o volante do carro do lado direito. Até para o passageiro, andar do lado esquerdo do carro é estranho. Digo com propriedade, pois com minha habilitação vencida não podia dirigir, assim, obviamente a motorista seria a Ju. Ela nervosa, eu também por conseqüência, pegamos a estrada em direção a uma cidade chamada Tyndrum. Não vá pensando que pegamos uma estrada larga, com diversas pistas, como as Autobahns alemãs. Essa era de duas mãos e a ausência de acostamentos tornava-a ainda mais estreita do que é. Tudo bem, brasileiros e familiarizados com estradas de, digamos, não tão boa qualidade, seguimos pela via que para nós é contra-mão no Brasil. Porém, numa curva para a esquerda (como é estranho fazer curvas para a esquerda com o volante do lado direito) a Ju bateu com a roda traseira (esquerda, claro) na guia (sim há guias em alguns trechos das estradas) e se assustou. Paramos e após constatarmos que nada havia acontecido ao carro, por consenso, achamos melhor eu assumir o volante. Repito: que coisa estranha! Era a primeira vez em mais de seis meses que eu estava dirigindo e a primeira vez em 33 anos que dirigia nessa posição. Bom, para encurtar a história, nada demais aconteceu além de tentar pegar o cinto de segurança do meu lado esquerdo toda a hora que entrava no carro ou de às vezes levar a mão direita a uma garrafa de água que estava no porta-trecos da minha porta na hora da troca de marchas. Coisas engraçadas.
As paisagens, no entanto, eram realmente de encher nossos olhos. Paramos em todos os lugares que achamos interessantes, inclusive em diversas partes da estrada onde não havia nada, apenas belezas a serem fotografadas e admiradas.
Nosso roteiro era uma triangulação. Saímos de Fort William e rumamos para o sudeste até Tyndrum. Mudamos o rumo para leste até outra cidade chamada Oban e depois novamente alteramos nosso curso para o norte, voltando para Fort William e terminando o percurso de cerca de 140 milhas.
Passamos por monumentos, museus, centros de visitantes, castelos, cidades, montanhas, lochs, rios, cachoeiras, estradas de ferro. Curtimos muito. Acabamos dormindo num “Bed and Breakfast” (os BB’s, muito comuns por aqui) um pouco depois de Oban ao invés de passarmos a noite na estrada. Mais confortável e quente.
Como combinado com a locadora, no dia seguinte estacionamos o Ka no estacionamento da Estação de Trem de Fort William, tiramos tudo de dentro e entregamos a chave no guichê de venda de passagens da própria estação e o carro estava devolvido. Simples assim, sem check out, sem horário, sem Coisas de grandes cidades, apenas confiança.
Às 12:04h nosso trem partia em direção a Londres e sentíamos que nossas férias haviam terminado.

2

de
dezembro

Fim do Expediente

Mallaig ficou para trás, ou melhor, ficou onde sempre foi, no norte escocês. Terminamos nosso serviço por aquelas terras de vento, de gente legal, de economia de dinheiro.
Não somos mais os mesmos e isso já era previsto, porém, experimentar essa sensação é algo muito bom. Trabalhamos duro. Tarefas difíceis para quem nunca havia se sujeitado a tais coisas, ao menos profissionalmente. A Ju arrumando quartos, camas e banheiros; eu lavando panelas, limpando cozinha e equipamentos, descascando vegetais. Fomos testados, acredito que mais eu que ela. Acho que tive mais conflitos que ela, mais re-arranjos necessários, mais adaptações. Não tenho a resposta exata do porquê disso, mas acho que sempre fui mais inflexível, mais turrão, mais estreito em relação a minha vida profissional, menos humilde que ela. Por isso, talvez, tenha aprendido mais que minha amiga, namorada, mulher.
Os últimos dias de trabalho no West Highland Hotel foram de contagem regressiva. Como já havia mencionado por aqui, alguns já haviam partido (Ruta, Erika, Canlor e Kady) sendo a Monika a última a ir embora antes do fim da temporada. A contagem era regressiva, principalmente para a Ju que estava fazendo o “housekeeping” praticamente sozinha, dia após dia. Para mim as coisas começavam até a ficar entediantes, uma vez que o restaurante já não abria mais para almoços e o número de pessoas que jantavam por lá era bem menor que no início.
Tudo passou muito rápido e quase nem me dei conta que no dia 03/11/07, um sábado à tarde, um dia de sol em meio aos dias nublados daquela semana, numa limpeza geral da cozinha, eu e a Giulian, a chef, demos por encerrado nossos trabalhos na temporada de verão de 2007 do West Highland Hotel. Fechávamos a cozinha e eu encerrava uma etapa importantíssima e única de minha vida.
Como dizem, entre o céu e a terra há muito mais do que a vã filosofia pode imaginar. Em meus vãos pensamentos nunca havia concebido que um trabalho de máquina de lavar louças fosse tão relevante e tão construtivo. Sem pensar, aprendi a ser mais humilde, mais paciente, a trabalhar mais meus sentimentos e lidar melhor com minhas frustrações.
E quando me perguntam por que alguém com pós-graduação submete-se a ser lavador de panelas, simplesmente não tenho como argumentar, apenas a lamentar.

2

de
dezembro

Ate que enfim um novo post

Pois e, leitores. faz tempo que nao escrevo por aqui. Como ja notaram, estou escrevendo direto no blog do computador de uma lan house, que nao acentua.

Desde que saimos de Mallaig nao postei nada no blog e nao vou me demorar com desculpas. Nao sei se foi preguica ou falta de inspiracao londrina que deixaram o mes de novembro inteirinho sem novidades.

Porem, agora e dezembro, ultimo mes de um ano simplesmente maravilhoso (falando "egoisticamente"), mes de voltar pra casa, mes de ver amigos e familia, mes de inspiracao.

VAmos la, entao. Nao vou pedir desculpas aos que costumam buscar alguma coisa por aqui pois nao quero ter esse compromisso. O blog nao e um diario nem uma obrigacao. E uma forma de lazer prazerosa para mim e espero que seja o mesmo para voce que o le agora, hehe.

Espero que curta esse mes (por aqui e por ai, onde voce estiver) como eu certamente o farei!

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