25
de
outubro
Sobre meninos e Lobos
Sou biólogo, mesmo trabalhando na cozinha de um hotel no interior da Escócia. Sou também especialista em gestão ambiental, nas mesmas condições. Acredito ser uma condição humana a adaptação: quanto ao clima, quanto à alimentação e porque não, quanto aos seus conhecimentos. Por exemplo: procuro aplicar metodologias mais limpas para lavar panelas na cozinha do West Highland Hotel, utilizo menos detergente que o recomendado (com o mesmo resultado), encaminho para reciclagem uma parte do resíduo que procuro minimizar a geração em meu quarto. É uma visão muito simplista, concordo. Acho que até esbarro no ridículo dizendo esse tipo de coisa, mas é uma maneira de diferenciar-me, de maneira bem humorada, de uma máquina de lavar louças.
O fato de ser biólogo também influencia na percepção que tenho a respeito do mundo. Tive uma professora na faculdade, no primeiro ano, chamada Yur Maria Tedesco. Era lendária, temida por todos por seu rigor, soberana em seus saltos altos e elegância. Logo na primeira aula, do primeiro dia, a ouvi declamar com seu sotaque gaúcho que “o Biólogo enxerga o mundo de uma maneira diferente…” e acho que levei, como muitos, isso bastante a sério. Não sei mais se enxergo o mundo de maneira diferente por causa da frase ou se ouvi a frase por já enxergar o mundo de maneira diferente. Enfim…
O fato é que o relacionamento dos britânicos (não apenas os escoceses, mas os ingleses também) com o meio ambiente foi algo que me chamou a atenção, mais ainda depois de vir para Mallaig. De um modo geral eles possuem uma visão que se distancia anos-luz da visão da maioria dos brasileiros sobre esse tema. É excelente, porém, pode ter uma face péssima.
O que é interessante e bom é que parece que eles se consideram parte do ambiente. Animais como qualquer outro, dotados sim de um pouco mais de inteligência e capacidade de manipulação das coisas. E você pode dizer: “mas é claro que sou parte da natureza”. Sim é (mesmo que você não queira). Mas quantas vezes não raciocinou ou ouviu coisas como “o homem e o meio ambiente”, “o homem contra as dificuldades da natureza”, etc..
Isso é bom, pois dessa maneira o meio ambiente é respeitado, é estudado, é motivo de orgulho. O lado ruim…
Dois meninos ao voltarem da escola foram mortos ao serem atacados por um lobo selvagem. O lobo foi morto também. Isso aconteceu nos idos de 1790 e esse lobo foi o último que se teve notícia por essas terras altas. Pelo homem considerar-se um animal aniquilou a espécie de lobo que habitava as Highlands, por considerá-lo inimigo, mau. Isso é ruim. Isso foi em 1790.
Porém, atualmente um milionário inglês comprou uma imensa área de terra com o seguinte propósito: re-introduzir a espécie de lobo extinta há mais de 200 anos. Independentemente do fato que o milionário inglês irá usar sua área e seus lobos para gerar dinheiro, oferecendo safáris para a observação dos animais em seu habitat “natural”; sob meu ponto de vista, é algo excelente e só tem a somar à vida das pessoas que aqui vivem e ao país. No entanto, fiquei pasmo ao ler que as comunidades situadas nos arredores da propriedade não apóiam a idéia. As pessoas dessas comunidades mantém o pensamento de 1790 e se preocupam com supostos ataques de lobos.
Ainda em tempo: para fugir da propriedade os lobos teriam que, primeiro ter a necessidade para tal (por exemplo falta de alimento, superpopulação, destruição de seu habitat); segundo teriam que ser capazes de escalar uma cerca eletrificada de três metros de altura.
Até quando será que as pessoas vão acreditar que são donas do mundo? Qual é o direito que qualquer ser humano tem de matar qualquer ser vivo por considerá-lo sua propriedade, seu inimigo, um intruso, etc.?

