3
de
outubro
Beautiful Day
Escrevi em há alguns posts atrás que tem sido possível para mim, ver sob um outro ponto de vista as coisas boas e as ruins da nossa vida brasileira no Brasil. Acredito que a distância, a ausência de notícias sobre a terrinha-mãe-querida e o conhecimento através do contato com serviços, maneiras de pensar, políticas públicas locais (de Londres e de Mallaig), enfim, o contato através da imersão na vida por aqui, possibilitem esse discernimento e conseqüentemente tornem as coisas muito mais claras do que eu achava que fossem. Isso é bom, muito bom. Realmente fui pego de surpresa pensando dessa maneira, pois acreditava, antes de vir para cá, que já possuía uma avaliação formada, consolidada, com firma reconhecida e autenticada em cartório a respeito das coisas brasileiras e seus valores.
Outro dia num day off, pegamos o trem para ir até um local chamado Glenfinnan. O dia estava lindo, ensolarado, com uma atmosfera prá lá de limpa que dava uma nitidez absurda mesmo para os contornos das montanhas (e são muitas por aqui) vistas ao longe.
Ao esperar pela partida do trem – às 10:34h – ambos, a Ju e eu, nos surpreendemos ao chegar e sentar ao nosso lado a Sara, a garota australiana que trabalha conosco no hotel e que havia ido embora, mas acabou voltando. Ela também estava em seu day off e ia até Fort William para fazer compras.
Conversamos durante cerca de uma hora – o tempo que o trem leva para percorrer o lindo trecho entre Mallaig e Glenfinnan. É certo que nesse tempo houve algumas pausas e alguma incompreensão, pois temos muita dificuldade ainda em entender o que justamente a Sara diz, talvez pelo inglês carregado da Austrália, talvez por algum problema de dicção. Mas nos entendemos bem no final das contas.
Achei interessante reproduzir para vocês um trecho dessa conversa que mostra justamente o que comentei no início: a percepção de que no Brasil existem muitas coisas, digamos, diferentes das daqui ou, no caso dessa conversa, da Austrália.
Inventei algumas passagens do diálogo e justamente para reforçar isso. Fiz um mix do que falamos realmente e do que penso, quase que fazendo um tipo de paródia ou crônica. Ainda não a tenho pronta neste exato momento que estou escrevendo, então, veremos (ou leremos) juntos e vamos ver no que dá!
Estávamos conversando há alguns minutos e Sara nos questionou a respeito da pontualidade – no caso do trem no qual estávamos – que por aqui é praticada:
“- Aqui os trens são bem pontuais, não?
- Muito! (respondemos)
- Os trens são pontuais assim no Brasil, também?
- Hummm, er… Não, na verdade não somos muito pontuais no Brasil. Até em reuniões de trabalho é comum se atrasar em 15 ou 20 minutos.
- Entendo. Mas os trens atrasam tudo isso também?
- Hummm… não temos muitos trens no Brasil. O que temos de estradas de ferro por lá está restrito a linhas urbanas e ao transporte de carga. Nas linhas urbanas os trens e as linhas são muito velhos e muito pouca carga é transportada por trens.
- Por que?
- Porque temos poucas estradas de ferro.
- Sei. E como transportam as coisas e as pessoas?
- Por rodovias. Temos algo parecido com o sistema norte americano de transporte. Quase todo o mundo tem carro.
- Hum entendo. Então os brasileiros têm bastante dinheiro…
- Não. Temos uma renda per capita muito baixa, ainda.
- Mas como é possível, então todo o mundo ter carro? O governo incentiva?
- Não, não há nenhum incentivo do governo para isso. Muito pelo contrário, quem tem carro paga uma grande quantidade de impostos por isso. Além de pagar caro o combustível, que também têm em seu preço uma boa parcela de impostos cobrada.
-Bom, então vamos ver pelo lado bom: se vocês pagam tantos impostos assim, têm boas estradas, boas ruas nas cidades, segurança…
- Hummm, er. Na verdade nossas estradas são péssimas, as ruas das grandes cidades são muito congestionadas e a segurança não é o que temos de melhor por lá.
- Poxa… mas para onde vai o dinheiro dos impostos? Não deveria custear essas e outras coisas?
- Deveria sim…
- Sei. Então já que tem pouco dinheiro, porque o governo não incentiva o transporte coletivo e investe em transportes alternativos, como trens e barcos? Vocês não têm muitos rios por lá?
- Temos sim. Rios enormes, muita água.
- Então. E porque o governo não incentiva o transporte através de hidrovias?
- Perto das grandes cidades, onde há maior demanda para o transporte os rios estão totalmente poluídos e não há como navegar por eles por causa do lixo.
- Lixo? Mas não há coleta e tratamento de lixo nessas cidades?
- Há sim, mas a população não colabora e não se importa.
- Como assim? As pessoas não vêm que elas são prejudicadas com isso? Tem escola para todos por lá?
- Ah escola tem sim e temos uns dos menores índices de reprovação no mundo!
- Então quer dizer que o problema são os adultos, pois as crianças aprendem tudo, certo?
- Não muito. Uma boa parte dos jovens que termina o ensino fundamental não sabe ler nem escrever.
- Mas, então, me explica: como vocês têm “um dos menores índices de reprovação do mundo”?
- Um sistema que não permite que o aluno repita de ano.
- E isso é bom? Os professores apóiam?
- Não é bom e os professores não apóiam.
- Sei. E porque o governo não muda isso?
- Não sabemos… achamos que porque a sociedade não cobra.
- Mas precisa cobrar? Os políticos que são eleitos não apresentam um plano de governo antes das eleições?
- Não necessariamente…
- E como ganham as eleições se não apresentam um planejamento? Vocês não têm eleições diretas?
- Temos sim, nós, cidadãos é que escolhemos nossos governantes.
- Hummm. Então quer dizer que vocês também têm participação nessa coisa toda?
- Que sorte nós tivemos, né Sara: você viu que dia lindo está fazendo hoje?”


Comentário por Dé — 3 de outubro de 2007 (11:57)
Excelente! Excelente, irmão!
Mais uma vez vc surpreende pela clareza de pensamento, pela coerência ao escrever e pelo tom quase ironico ao tratar de coisas tão sérias…
Já pensou em virar cronista? Veríssimo, Moacir Sciliar e outros, provavelmente começaram assim.
Lembro de um livro que li de crônicas do Cesar Tralli (aquele jornalista da Globo). Ele foi correspondente dessa emissora por muitos anos… onde? Em Londres. E escrevia justamente sobre as diferenças entre a cultura inglesa e a brasileira, fazendo uma comapração muito semelhante à sua. Uma compração crítica e, ao mesmo tempo, ironica-com-pitada-de-saudade.
Continue escrevendo que, quando retornar ao Brasil, serei sua empresária…
Muitos beijos e diga à Sara que venha tb morar no Brasil por um tempo pra tentar entender a lógica completamente ilógica do que vivemos cotidianamente.
Comentário por Selma — 3 de outubro de 2007 (14:45)
Que bom que o dia estava lin do e vocês puderam comentar sobre ele.
Ninguém entende este país, nem nós…
Bjs.
Comentário por Fabiane — 3 de outubro de 2007 (15:00)
Concordo com a Dé, vc está se saindo um ótimo escritor! Acho que qdo voltarem, devem escrever um livro sobre essa experiência maluca que estão vivendo mundo afora…eu compraria! rs
Beijos e saudades!
Comentário por Selma — 19 de outubro de 2007 (3:18)
Fá,
Não vai ter mais nada até dezembro, quando vc vem?
Que pena!!!!
Eu adoro ler o que vc escreve… e mato um pouco as saudades…
Beijos…
Comentário por Fabiane — 23 de outubro de 2007 (11:46)
E as novidades? Não vai mais escrever????
Beijos p´ra vc e pra Ju!