BLOG DO FÁ SAMORI

As experiências, sensações e aventuras de alguém que saiu do Brasil para experimentar o mundo.

25

de
outubro

Leia rapido e pense por que

Faz tempo que não publico nada novo no Blog, como obviamente, quem o acompanha tem percebido. Não que esteja desmotivado com o Blog em si, na verdade o que vem acontecendo é que as novidades estão escassas. Tudo o que despertava os sentidos antes vem se tornando com o cotidiano, lugar comum e assim a inspiração para contar sobre novos pontos de vista, novas descobertas, novas novas, já não é grande, muito pelo contrário. Até mesmo falar sobre a saudade que sinto de tudo no Brasil já me cansou um pouco, pois achei que o Blog estava ficando muito melancólico demais da conta e essa não era a minha intenção. Parei de falar disso antes de cansar quem lê.
O clima por aqui não está tão ruim, porém, temos tido um certo azar em nossos “days-off” pegando dias muito frios e chuvosos, o que não encoraja muito tirar a cara pra fora do quarto.
Outra coisa é que estamos trabalhando mais. Mesmo com o fim da temporada inesperadamente o hotel está cheio e com um agravante: alguns membros do staff já foram dispensados (éramos dez no começo e agora estamos em seis), o que resulta em mais trabalho para quem ficou.
Assim o tempo que tínhamos livre antes estamos utilizando ou para descansar ou para nos proteger do frio.
O que temos feito muito é lido. Livros, jornais, revistas. Tudo o que aparece a gente lê. O que é bom sob diversos aspectos: melhoramos o nosso vocabulário no inglês, ficamos informados sobre as coisas que acontecem por aqui, aprendemos mais sobre a cultura britânica. Esse último, em especial supriu-me de assuntos para escrever o que escrevo agora.
É certo que grande parte dos jornais trazidos ao nosso quarto pela Ju é composta por tablóides baratos, recheados de sensacionalismo e de notícias que muitas vezes pomos em cheque sua veracidade. Não por acaso eles chegam ao nosso quarto em maioria, mas sim porque são muito lidos pelos britânicos.
Acho interessante explicar, acredito que ainda em tempo, que os jornais chegam ao nosso quarto não por um serviço de entrega, ou porque nos rendemos à imbecilidade praticada nos tablóides e resolvemos assinar o maior número possível de publicações. Chegam, como disse, trazidos pela Ju, que ao arrumar os quartos dos hóspedes do hotel, recolhe seus jornais velhos.
Não nos importamos muito com o fato dos jornais serem do dia anterior. Aliás isso foi motivo para um momento de reflexão entre nós dois (a Ju e eu): não faz muita diferença para nós saber que aquilo que estamos lendo aconteceu há um ou dois dias atrás. Acreditamos que não é por causa de nosso quase-isolamento geográfico, nem tampouco lingüístico (que já não é mais nenhum isolamento). O fato é que simplesmente não há, nem nunca houve diferença em saber se o governo ditatorial de extrema direita (isso é redundância?) de Burma matou mais de mil monges ontem, na semana passada ou hoje. Falo de Burma apenas como um exemplo. Não sei se porque estamos vivendo num local muito tranqüilo, não sei se porque estamos vendo muito pouca televisão (que acelera toda a vida e reduz o tamanho do mundo), não sei se porque estamos acessando muito pouco a internet (que transmite as informações à velocidade da luz e reduz o mundo a um quarteirão) ou se por causa de tudo isso somado.
É curioso pensar nisso. E para você? Alguma vez alguma notícia chegou a influenciá-lo em seu cotidiano?
Na hora que escrevi a linha acima lembrei daquele episódio de (se não me engano) maio de 2006 quando fomos induzidos a acreditar que o PCC estava explodindo a cidade de São Paulo inteira. Aquilo mudou meu cotidiano, mas na verdade foi uma tremenda tempestade de boatos e mentiras.
Será que devemos procurar saber das coisas que aconteceram no último minuto pelo mundo inteiro? O que buscamos com isso? Para que precisamos de tanta velocidade na informação? Será que a vida não é mais simples sem tanta velocidade?
Coisas para pensar…

25

de
outubro

Sobre meninos e Lobos

Sou biólogo, mesmo trabalhando na cozinha de um hotel no interior da Escócia. Sou também especialista em gestão ambiental, nas mesmas condições. Acredito ser uma condição humana a adaptação: quanto ao clima, quanto à alimentação e porque não, quanto aos seus conhecimentos. Por exemplo: procuro aplicar metodologias mais limpas para lavar panelas na cozinha do West Highland Hotel, utilizo menos detergente que o recomendado (com o mesmo resultado), encaminho para reciclagem uma parte do resíduo que procuro minimizar a geração em meu quarto. É uma visão muito simplista, concordo. Acho que até esbarro no ridículo dizendo esse tipo de coisa, mas é uma maneira de diferenciar-me, de maneira bem humorada, de uma máquina de lavar louças.
O fato de ser biólogo também influencia na percepção que tenho a respeito do mundo. Tive uma professora na faculdade, no primeiro ano, chamada Yur Maria Tedesco. Era lendária, temida por todos por seu rigor, soberana em seus saltos altos e elegância. Logo na primeira aula, do primeiro dia, a ouvi declamar com seu sotaque gaúcho que “o Biólogo enxerga o mundo de uma maneira diferente…” e acho que levei, como muitos, isso bastante a sério. Não sei mais se enxergo o mundo de maneira diferente por causa da frase ou se ouvi a frase por já enxergar o mundo de maneira diferente. Enfim…
O fato é que o relacionamento dos britânicos (não apenas os escoceses, mas os ingleses também) com o meio ambiente foi algo que me chamou a atenção, mais ainda depois de vir para Mallaig. De um modo geral eles possuem uma visão que se distancia anos-luz da visão da maioria dos brasileiros sobre esse tema. É excelente, porém, pode ter uma face péssima.
O que é interessante e bom é que parece que eles se consideram parte do ambiente. Animais como qualquer outro, dotados sim de um pouco mais de inteligência e capacidade de manipulação das coisas. E você pode dizer: “mas é claro que sou parte da natureza”. Sim é (mesmo que você não queira). Mas quantas vezes não raciocinou ou ouviu coisas como “o homem e o meio ambiente”, “o homem contra as dificuldades da natureza”, etc..
Isso é bom, pois dessa maneira o meio ambiente é respeitado, é estudado, é motivo de orgulho. O lado ruim…
Dois meninos ao voltarem da escola foram mortos ao serem atacados por um lobo selvagem. O lobo foi morto também. Isso aconteceu nos idos de 1790 e esse lobo foi o último que se teve notícia por essas terras altas. Pelo homem considerar-se um animal aniquilou a espécie de lobo que habitava as Highlands, por considerá-lo inimigo, mau. Isso é ruim. Isso foi em 1790.
Porém, atualmente um milionário inglês comprou uma imensa área de terra com o seguinte propósito: re-introduzir a espécie de lobo extinta há mais de 200 anos. Independentemente do fato que o milionário inglês irá usar sua área e seus lobos para gerar dinheiro, oferecendo safáris para a observação dos animais em seu habitat “natural”; sob meu ponto de vista, é algo excelente e só tem a somar à vida das pessoas que aqui vivem e ao país. No entanto, fiquei pasmo ao ler que as comunidades situadas nos arredores da propriedade não apóiam a idéia. As pessoas dessas comunidades mantém o pensamento de 1790 e se preocupam com supostos ataques de lobos.
Ainda em tempo: para fugir da propriedade os lobos teriam que, primeiro ter a necessidade para tal (por exemplo falta de alimento, superpopulação, destruição de seu habitat); segundo teriam que ser capazes de escalar uma cerca eletrificada de três metros de altura.

Até quando será que as pessoas vão acreditar que são donas do mundo? Qual é o direito que qualquer ser humano tem de matar qualquer ser vivo por considerá-lo sua propriedade, seu inimigo, um intruso, etc.?

3

de
outubro

Beautiful Day

Escrevi em há alguns posts atrás que tem sido possível para mim, ver sob um outro ponto de vista as coisas boas e as ruins da nossa vida brasileira no Brasil. Acredito que a distância, a ausência de notícias sobre a terrinha-mãe-querida e o conhecimento através do contato com serviços, maneiras de pensar, políticas públicas locais (de Londres e de Mallaig), enfim, o contato através da imersão na vida por aqui, possibilitem esse discernimento e conseqüentemente tornem as coisas muito mais claras do que eu achava que fossem. Isso é bom, muito bom. Realmente fui pego de surpresa pensando dessa maneira, pois acreditava, antes de vir para cá, que já possuía uma avaliação formada, consolidada, com firma reconhecida e autenticada em cartório a respeito das coisas brasileiras e seus valores.
Outro dia num day off, pegamos o trem para ir até um local chamado Glenfinnan. O dia estava lindo, ensolarado, com uma atmosfera prá lá de limpa que dava uma nitidez absurda mesmo para os contornos das montanhas (e são muitas por aqui) vistas ao longe.
Ao esperar pela partida do trem – às 10:34h – ambos, a Ju e eu, nos surpreendemos ao chegar e sentar ao nosso lado a Sara, a garota australiana que trabalha conosco no hotel e que havia ido embora, mas acabou voltando. Ela também estava em seu day off e ia até Fort William para fazer compras.
Conversamos durante cerca de uma hora – o tempo que o trem leva para percorrer o lindo trecho entre Mallaig e Glenfinnan. É certo que nesse tempo houve algumas pausas e alguma incompreensão, pois temos muita dificuldade ainda em entender o que justamente a Sara diz, talvez pelo inglês carregado da Austrália, talvez por algum problema de dicção. Mas nos entendemos bem no final das contas.
Achei interessante reproduzir para vocês um trecho dessa conversa que mostra justamente o que comentei no início: a percepção de que no Brasil existem muitas coisas, digamos, diferentes das daqui ou, no caso dessa conversa, da Austrália.
Inventei algumas passagens do diálogo e justamente para reforçar isso. Fiz um mix do que falamos realmente e do que penso, quase que fazendo um tipo de paródia ou crônica. Ainda não a tenho pronta neste exato momento que estou escrevendo, então, veremos (ou leremos) juntos e vamos ver no que dá!

Estávamos conversando há alguns minutos e Sara nos questionou a respeito da pontualidade – no caso do trem no qual estávamos – que por aqui é praticada:
“- Aqui os trens são bem pontuais, não?
- Muito! (respondemos)
- Os trens são pontuais assim no Brasil, também?
- Hummm, er… Não, na verdade não somos muito pontuais no Brasil. Até em reuniões de trabalho é comum se atrasar em 15 ou 20 minutos.
- Entendo. Mas os trens atrasam tudo isso também?
- Hummm… não temos muitos trens no Brasil. O que temos de estradas de ferro por lá está restrito a linhas urbanas e ao transporte de carga. Nas linhas urbanas os trens e as linhas são muito velhos e muito pouca carga é transportada por trens.
- Por que?
- Porque temos poucas estradas de ferro.
- Sei. E como transportam as coisas e as pessoas?
- Por rodovias. Temos algo parecido com o sistema norte americano de transporte. Quase todo o mundo tem carro.
- Hum entendo. Então os brasileiros têm bastante dinheiro…
- Não. Temos uma renda per capita muito baixa, ainda.
- Mas como é possível, então todo o mundo ter carro? O governo incentiva?
- Não, não há nenhum incentivo do governo para isso. Muito pelo contrário, quem tem carro paga uma grande quantidade de impostos por isso. Além de pagar caro o combustível, que também têm em seu preço uma boa parcela de impostos cobrada.
-Bom, então vamos ver pelo lado bom: se vocês pagam tantos impostos assim, têm boas estradas, boas ruas nas cidades, segurança…
- Hummm, er. Na verdade nossas estradas são péssimas, as ruas das grandes cidades são muito congestionadas e a segurança não é o que temos de melhor por lá.
- Poxa… mas para onde vai o dinheiro dos impostos? Não deveria custear essas e outras coisas?
- Deveria sim…
- Sei. Então já que tem pouco dinheiro, porque o governo não incentiva o transporte coletivo e investe em transportes alternativos, como trens e barcos? Vocês não têm muitos rios por lá?
- Temos sim. Rios enormes, muita água.
- Então. E porque o governo não incentiva o transporte através de hidrovias?
- Perto das grandes cidades, onde há maior demanda para o transporte os rios estão totalmente poluídos e não há como navegar por eles por causa do lixo.
- Lixo? Mas não há coleta e tratamento de lixo nessas cidades?
- Há sim, mas a população não colabora e não se importa.
- Como assim? As pessoas não vêm que elas são prejudicadas com isso? Tem escola para todos por lá?
- Ah escola tem sim e temos uns dos menores índices de reprovação no mundo!
- Então quer dizer que o problema são os adultos, pois as crianças aprendem tudo, certo?
- Não muito. Uma boa parte dos jovens que termina o ensino fundamental não sabe ler nem escrever.
- Mas, então, me explica: como vocês têm “um dos menores índices de reprovação do mundo”?
- Um sistema que não permite que o aluno repita de ano.
- E isso é bom? Os professores apóiam?
- Não é bom e os professores não apóiam.
- Sei. E porque o governo não muda isso?
- Não sabemos… achamos que porque a sociedade não cobra.
- Mas precisa cobrar? Os políticos que são eleitos não apresentam um plano de governo antes das eleições?
- Não necessariamente…
- E como ganham as eleições se não apresentam um planejamento? Vocês não têm eleições diretas?
- Temos sim, nós, cidadãos é que escolhemos nossos governantes.
- Hummm. Então quer dizer que vocês também têm participação nessa coisa toda?
- Que sorte nós tivemos, né Sara: você viu que dia lindo está fazendo hoje?”

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