24
de
setembro
O colega portugues
A despreocupação ou inocência ou a confiança (o que prefiro acreditar) das pessoas com quem e em quem não se conhece já havia me despertado o interesse desde que aluguei o quarto lá em Londres com a Sandra, nossa flat-mate. Nenhum contrato de locação, nenhuma assinatura, nenhum depósito adiantado, nenhum fiador. Nada, apenas a minha palavra de que pagaria o aluguel todo o mês e que quando quisesse sair teria de avisá-la com um mês de antecedência. Simples assim.
As relações trabalhistas aqui no Reino Unido também parecem seguir essa linha e, portanto, são bastante diferentes das existentes no Brasil. Na agência para a qual trabalhei como garçon, a Blue Arrow, apresentei meu passaporte e preenchi um formulário, porém, aqui no West Highland Hotel foi bastante diferente e até curioso para nós brasileiros, acostumados com a burro-cracia típica. Não sei se em todos os lugares aqui da Escócia a coisa é assim ou se aqui é da maneira que é por Mallaig ser uma cidade muito pequena e as pessoas terem hábitos interioranos, também.
Conseguimos (a Ju e eu) nossos empregos aqui através de um site na internet, o Gumtree – acho que até já comentei isso no blog. No total foram trocados três e-mails com hotel e estávamos empregados. Ao chegarmos imaginei que iriam nos pedir os passaportes, uma carta da escola para a Ju atestando que ela estava de férias e, portanto, gozava do direito de trabalhar full time, mas não. Apenas preenchemos um simples formulário. Ninguém pediu uma cópia de documento uma carta de referência, nada. Não pensem que estamos trabalhando ilegalmente por causa disso. O tal formulário era um tipo de registro, uma maneira do governo saber quantos trabalham num determinado local, quanto ganham e quanto se pode arrecadar através de impostos. Porém, nada além disso.
O cotidiano também é baseado na confiança mútua: ninguém controla a quantidade de horas que fazemos. Apenas registramos o tempo trabalhado numa tabela xerocada que fica em nosso poder, dentro de nosso quarto. A entregamos todas as terças-feiras para se fazer o cálculo do valor que recebemos semanalmente.
No entanto, acho que tanta confiança assim abre uma certa brecha para pessoas que, digamos, não estejam fazendo as coisas tão certas como se deveria. Acho que não é a toa que trabalham conosco tantas pessoas de países que ainda não estão na comunidade européia.
Porém, nada por aqui despertou tanto a nossa atenção (falando apenas da Ju e eu) como o nosso colega Canlor, o “português” que fiz referência a alguns posts atrás e agora explico as aspas.
Assim que chegamos nos disseram: “tem um português trabalhando por aqui. Vocês falam a mesma língua que as pessoas de Portugal, não?” Achamos interessante. Fomos, então apresentados ao Canlor, que fala um inglês perfeito e vive atualmente em Manchester. Numa ocasião em que eu conversava com ele, não soube dizer uma certa palavra em inglês e usei a palavra em português para me expressar. De pronto ele fez uma cara estranha, como se nunca tivesse ouvido aquilo antes.
Noutra ocasião perguntei a ele sobre qual cidade de Portugal ele era e outras curiosidades que tinha. Coisas bobas, sem nenhum compromisso, mas que não foram respondidas. Ele rodeou e escapou da resposta simples a uma pergunta simples. Comecei a desconfiar e parei de perguntar coisas sobre Portugal. Ele é uma pessoa legal, quieto, diferente das megeras que habitam os alojamentos dos staffs. Passamos por algumas situações chatas com outras pessoas, do tipo “conversem um pouco em português para a gente ouvir como é…”
Tudo se tornou extremamente claro quando ele me emprestou seu MP3 player para que copiasse algumas de suas músicas e recarregasse-o na saída USB do computador. Selecionei todos os arquivos de seu MP3 e dei o comando para tocar tudo. Queria ouvir as músicas que ele tinha. Imediatamente o computador abriu três arquivos que não eram MP3, mas sim do Acrobat. Um deles era um formulário de imigração da Nigéria para o Reino Unido. Não li nada, apenas fechei, mas entendi tudo.
Não comentei nada com Canlor para não constrangê-lo, mas tenho convicção que português ele não é.
Nada contra ele, como já disse. Conto essa história apenas para explicar o porquê das aspas, esperando que ele consiga tudo o que quer e precisa da melhor maneira possível.
Só uma coisa: não contem nada a ninguém, por favor!


Comentário por Mamma — 24 de setembro de 2007 (15:49)
Oi Fá,
Gostei muito do nossa “burrocracia” à qual vc se referiu.
E adorei a confiança que existe aí e em Londres.
E diz pra Ju não ter medo de ir ao sótão, fantasmas não fazem nada…hehehe…
O “português” é branco ou negro, já que vc descobriu que é nigeriano? Prque a maior parte dos nigerianos é negra, né?
E pra qem iríamos contar?????
Bjs. saudosos… não nos eixe sem notícias…