17
de
setembro
Domingo e dia de corrida
Com a alta temporada terminando por aqui, ao contrário do que acontece no Brasil, nos fins de semana as coisas são muito mais tranqüilas no West Highland Mallaig Hotel que nos “dias úteis”. Sentimos o fim da temporada não só no trabalho, que fica mais ameno nessas ocasiões, mas também na temperatura, que por aqui está já nos padrões do outono deles. As condições do tempo também avisam que o verão está ficando para trás: há alguns dias não vemos o sol e a paisagem que vejo da janela sobre a pia na qual trabalho se modificou: de um visual claro, limpo e colorido do mar e céu azuis com a ilha de Skye e suas montanhas ao fundo para uma paisagem opaca, acinzentada que na maior parte do dia, devido a nevoeiros, não permite ver, sequer, o mar. O que se vê claramente é apenas o que está mais próximo como a grama do hotel, que ainda permanece verde, a rua de asfalto bem preto, algumas árvores e alguns telhados, que se tornam ainda mais nítidos por estarem quase que 100% do tempo molhados pela chuva ou pela garoa fina trazida pelo vento forte.
Neste domingo não foi diferente e as cenas do domingo passado se repetiram. A cozinha encerrou as atividades cedo, pois não havia almoço a ser servido no restaurante. Assim, corri com o trabalho para poder ver o Grande Prêmio da Bélgica de Fórmula 1 pela TV. Neste domingo melhor, pois a “Scuderia Ferrari” venceu com dobradinha. Porém, senti algo que já havia sentido no domingo anterior: uma enorme saudade de assistir as corridas no Brasil. Não digo no autódromo de Interlagos, local que adoro, principalmente por haver estado lá em muitos episódios felizes da minha infância com meu pai e com meu Tio Orlando assistindo corridas de Stock Car, Mil Milhas e outras porcarias automobilísticas que tanto me fascinavam. A saudade a que me refiro é a de simplesmente assistir as corridas pela televisão. Sem querer ser repetitivo por adiar mais uma vez a conclusão do pensamento; não me refiro a assistir às corridas em minha própria casa sozinho ou acompanhado do Paco, meu amigo canino que já mencionei aqui no Blog.
Essa saudade é específica e as corridas vistas daqui me fazem lembrar as frias manhãs de domingo (não que as corridas sempre ocorram de manhã e no frio, porém, a temporada européia da F1 ocorre quando é inverno no Brasil e com uma diferença de horário de quatro ou cinco horas a mais, o que faz com que sejam transmitidas às oito ou nove da manhã) quando meu pai ia ao meu quarto me chamar: - “Fá vai começar a corrida. Você vai assistir?”. Botava uma roupa e descia as escadas geladas de mármore e me sentava ao seu lado no sofá. A TV já estava ligada e ele também, sempre criticando e comentando sobre o que se dizia na TV. Assistimos juntos muitas voltas de apresentação e muitas apresentações de muitos pilotos. Lembro-me que desde muito criança assistia às corridas com o paizão: sabia o nome dos pilotos que sempre foram de diversas nacionalidades: Niki Lauda, Carlos Reutmahn, Ronnie Petterson, Diddier Pirroni, Gilles Villeneuve, Renè Arnoux, Jaques Lafite. Depois de mais crescido Nelson Piquet, Ricardo Patrese, Nigel Mansel, Alain Prost, Jean Alesi e claro, Ayrton Senna. Estávamos juntos, inclusive, quando num dia primeiro de maio assistimos com uma imensa aflição o acidente na curva Tamburello.
Tínhamos um ritual: esperávamos a largada e depois corríamos à cozinha para pegar as coisas do café da manhã, que comíamos na sala, mesmo, na frente da TV: café com leite, bolo, biscoitos. Nas últimas vezes que fizemos isso estávamos esperando o fim da corrida para tomar café juntos na cozinha, muitas vezes na companhia de minha mãe, que nunca se interessou muito por essa história de acordar cedo e ver corrida (ambas).
Tudo isso, esse cenário, os comentários quase sempre indignados de meu pai, as perguntas que ele fazia no exato momento em que o locutor estava dizendo a resposta e ambos ficávamos sem saber qual era, a televisão baixinha para não acordar ninguém, o café com leite, a cumplicidade e a amizade que temos dão uma saudade danada.
Anote aí na agenda, Paizão: ano que vem, quando eu estiver por aí, vou dormir na sua casa só para ver uma corrida com você! E “Forza Ferrari!”


Comentário por Mamma — 17 de setembro de 2007 (14:58)
Fabio,
Seu pai ainda não leu, mas vou deixar ligado para ele ler… vai derreter…
E tomara mesmo que no ano que vem você possa assistir aqui conosco ou aqui em Sampa, não uma, mas todas as corridas, porque esta nostalgia que sinto vinda de você, quando leio seu blog, é porque você está como nós, não aguentando mais de saudades de TUDO!!!
Muitos beijos…
Comentário por Paizão — 17 de setembro de 2007 (17:01)
Uffa!!! fiquei emocionado, meu filho, também sinto muita saudade desse tempo que vc falava “IKI AUDA e ONI PÉTESSON” , não vejo a hora de assistirmos juntos muitas outras corridas e se possível as vitórias que virão da Ferrari. Um beijão Fá te amo.
Ciao, estamos indo p/ Ilhabela.
Beijos p/ JÚ.