10
de
setembro
The Wall
Hoje foi nosso dia de folga ou day-off, como chamamos por aqui. Não fizemos quase nada, pois o tempo estava muito, mas muito ruim. Aproveitamos para descansar. Voltamos para o quarto após o jantar. E é sobre o jantar que quero falar. Não apenas o jantar em si, mas o ato de se fazer as refeições por aqui.
O café da manhã tomamos quase todos os dias com duas garotas da Lituânia, Ruta e Erika. Não conversamos muito, pois o sono, acredito que principalmente o meu, não deixa. Ambas têm 20 anos e é a primeira vez que saem de seu país e trabalham fora. Ruta trabalha no housekeeping, com a Ju; e a Erika lavando lençóis e toalhas nas máquinas da lavanderia. Quem mais trabalha com a Ju e a Ruta é a Kady, uma garota da Estônia. Na cozinha trabalhamos em quatro ou cinco, dependendo do dia: eu, a chef Giulian, o sub-chef Dan e o rapaz que opera a máquina de lavar pratos e copos, Canlor. Brasileiro, Escocesa, Tcheco e “Português”, respectivamente (uma outra hora explico o português entre aspas). Nos dias mais atarefados os chefs contam com a ajuda da Becky ou do Rudy ambos escoceses, aqui mesmo de Mallaig. Completam o quadro de staffs as meninas que trabalham como garçonetes no restaurante do hotel: Monika, polonesa; Sarah (que já foi embora), australiana; Monique, sul-africana e outras três ou quatro mulheres aqui de Mallaig, que por esse motivo não moram, nem fazem as refeições aqui conosco.
Como dizia no início, a hora das refeições é quando todos, ou quase todos, se encontram e, por conseqüência seria a hora que todo o mundo interagiria mas… Desde que chegamos, nas refeições há um silêncio sepulcral. Vez ou outra sai um comentário sobre a comida, geralmente negativo (uma vez que os chefs não comem conosco). É estranho. Talvez esse silêncio expresse o que cada um espera de sua inter-relação pessoal por aqui, ou para si, onde quer que vá. Nada de envolvimentos. Não transpasse a grande muralha que me cerca (alguém aí já assistiu The Wall?).
Infelizmente as relações por aqui parecem ganhar uma certa profundidade apenas a medida que se discute, comenta e se opina sobre a vida alheia. Olhos atentos a cada movimento, ouvidos de cão de guarda, sempre preparados para captar qualquer coisa. Línguas afiadas prontas a disparar para todos os lados, inclusive em seus próprios aliados.
Conversando com a Ju sobre isso ela levantou algo que pode ser a pura verdade: estamos numa miniatura de cidade, vivendo aqui dentro desse hotel. Pouquíssimas pessoas, quase nenhum entretenimento, nada para se preocupar além do seu trabalho – que não força muito seus pensamentos. Será que é uma síndrome de pequenas comunidades ou será que é pura maldade das pessoas?
Qualquer que seja a resposta para esse acontecimento ou síndrome sociológica, preferimos (a Ju e eu) ficar de fora disso. Não nos deixamos entrar em assuntos mais pessoais, não ficamos muito aqui pelo hotel quando não estamos trabalhando. Alguém aí já ouviu Another Brick in the Wall?
De qualquer maneira, mesmo com nossas paredes grossas e altas, estamos bem e não sentimos isso como um problema. Temos uma boa relação com todos, sabemos que aqui é passageiro – e está passando rápido – e que somos privilegiados por podermos conhecer e desfrutar da maravilhosa região, muito pouco visitada por brasileiros (não avistamos nenhum por aqui até agora).


Comentário por Mamma — 13 de setembro de 2007 (23:35)
Fá,
É que estas pessoas não foram para aí de um país onde todos falam com todos, todos falam alto, etc..
Já imaginou que eles podem esconder lá no fundo um medinho?
Mas logo, logo, você estará aqui e chegará ouvindo muitos falarem, muito barulho e muita alegria!
Curta, por enquanto, o silêncio sepulcral! hehehe…
Beijos.
Comentário por Mauro — 14 de setembro de 2007 (3:33)
Nossa até parece que vc está em outro mundo, fofoca sobre a vida alheia, falar mal dos companheiros de trabalho/ estudo, não sei por aí, mas aqui no meu país essas coisas nunca acontecem… hahahahahaha
Abraço
Mauro