BLOG DO FÁ SAMORI

As experiências, sensações e aventuras de alguém que saiu do Brasil para experimentar o mundo.

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de
agosto

Things to do in London When You are not Dead III

Um lugar interessantíssimo de se trabalhar, pela simbologia do local em si, pelo tipo de trabalho e pelos eventos ocorridos foi no estádio de Wembley.

O novo estádio de Wembley, maravilhoso, imenso, tem sido palco de shows de rock ou outros tipos de músicas desde que acabou a temporada de futebol por aqui. Sim, para isso eles são muito organizados e montam um calendário bastante inteligente, otimizando os processos e provavelmente diminuindo custos. Bom, deixa isso prá lá. Como ia dizendo, o estádio por si só é maravilhoso: em seus cinco andares possui sob as arquibancadas em toda a extensão de seu anel uma coisa parecida com um shopping, porém, onde se vende apenas comidas, bebidas e souvenirs relacionados ao evento que está ocorrendo lá no gramado. O que chama a atenção na decoração de todo esse espaço são as fotos afixadas sobre os bares, formando como se fosse um painel contínuo por toda a volta do estádio (repito, isso em cada um dos cinco andares) que retratam toda a história do estádio. Jogos importantes de futebol, rúgbi, críquete, lutas de boxe, e outros eventos compõem as ilustrações relacionadas ao esporte. Fotos de shows do Queen, Live Aid e uma infinidade de bandas e cantores compõem as imagens que relacionam Wembley aos eventos culturais e artísticos que sedia. Falando nisso, estava por lá para trabalhar num show, que infelizmente não era do meu gosto, mas que foi interessante sob o ponto de vista da produção, das imagens e dos efeitos especiais no palco. Foi o início da turnê mundial do George Michael. Dois dias, sábado e domingo, trabalhei com uma mochila carregada de Smirnoff Ice (sábado) e cerveja (domingo) vendendo ao público. O trabalho foi muito bom, pois possibilitou um contato direto com as pessoas, o treino do inglês e fez aparecer o jogo de cintura brasileiro para vender as coisas. Eu e o espanhol Pablo, que trabalhou comigo arrecadando a grana do público fomos a dupla que mais vendemos. Nada como ter vivido num país repleto de vendedores ambulantes para fazer bem feito, como tal no exterior. Coisas simples, como olhar nos olhos das pessoas e oferecer seu produto, ter sempre o produto à mão (andava com duas garrafinhas de cada produto sempre, oferecendo e mostrando o que eu vendia às pessoas) e muita simpatia. Foi muito legal. Um bom aprendizado. No primeiro dia vendemos 1.300 pounds de Smirnoff Ice e no segundo, que foi mais fraco e não trabalhamos na pista, mas na parte interna das arquibancadas, cerca de 700 pounds de cerveja. Já, de cara respondo a pergunta que todo o mundo me fez: na somos comissionados, infelizmente, porém em Wembley eles pagam mais que nos outros locais, alguma coisa perto de 6,50 pounds por hora.

Outros eventos por lá aconteceram e estão acontecendo: a banda Muse (prá quem não conhece por aí, como eu não conhecia, recomendo), num show excelente, no próximo fim de semana Mettalica (esse já foi melhor, mas é melhor que o George Michael) e outras bandas que virão. É isso aí. See you!

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agosto

I Would to ride my bycicle 03 de julho de 2007

A página em branco do papel ou do computador, na verdade expressa exatamente o que tenho para relatar aqui no blog. Não, não é falta de assunto. Lembram-se dos idos da sexta, sétima ou oitava série, sei lá, quando fazíamos experiências com as cores? Havia uma delas que era um disco todo colorido, com as sete cores do arco-íris que quando colocávamo-lo para girar, em determinada rotação, já não nos era possível ver as cores, mas víamos branco. Isso tinha um nome, que meu curso de formação acadêmica, a Biologia, roubou de mim, substituindo-o erroneamente por Disco de Sechi. Não lembro seu nome verdadeiro, mas lembro-me exatamente da moral (simplificada) da história: para a física, a união de todas as cores resulta na cor branca.

Pois, então, fica fácil de relacionar o branco do papel, do início do texto com tudo isso: tenho uma imensidão de coisas a falar, porém, não estão organizadas, nem todas prontas para serem digitadas. Algumas sim…

Comecemos por estas, então.

Com o tempo menos ruim por aqui tenho saído mais com a bike pelas ruas. Uma excelente oportunidade para vários fins: economizar um dinheiro, conhecer a cidade, fazer exercício e ter o privilégio de se sentir respeitado numa bicicleta. Explico cada um deles.

O transporte público por aqui, dizem, é o mais caro do mundo. É fato que a simples conversão REAL > POUND não é válida, mas mostro parâmetros para se ter uma idéia. Um Pound, ou uma Libra custa hoje o equivalente a 4,00 Reais. Pois então, uma passagem de ônibus, se comprada diretamente no ônibus custa 2 pounds, se creditada num cartão pré-pago, um tipo de “Bilhete Único”, que chamam aqui de Oyster Card paga-se 1 pound por viagem. O metrô custa mais caro e depende do tamanho do trecho que você percorre. Londres é dividida em zonas: de 1 (centro) a 6. Moro na zona 3 e para ir até a zona 1 pago 2,50 pounds pela viagem no “Tube” (o metrô). Vou até o centro com dois ônibus ou um “tube” e 1:30h nos ônibus ou 40 minutos no tube. Então, vê-se que numa ida e volta até o centro, onde fica a escola de inglês onde estudo, por exemplo, já economiza um bom dinheiro. Isso sem falar no tempo gasto. Ir de bike é mais rápido, inclusive que o metrô. São cerca de 11km e faço-os em 30 minutos.

A bike possibilita conhecer muito mais a cidade. Isso felizmente já sabia pelas viagens de bike que fizemos pelo Brasil. Ela possibilita conhecer novos e melhores caminhos, errar e consertar rapidamente, ver ângulos que não seriam vistos de dentro de um ônibus, muito menos sob a terra, no metrô.

Porém, nenhum quesito dos listados supera o prazer de pedalar sendo respeitado. Já mencionei a faixa exclusiva de ônibus, bicicleta e táxi, e isso serviria como excelente exemplo para nós brasileiros (principalmente para mim que já teve a bike praticamente destruída propositalmente por um taxista em São Paulo). Porém, isso é só o começo.

Fiquem à vontade para verem e pasmarem-se com as iniciativas governamentais ligadas ao transporte por bicicletas no site http://www.tfl.gov.uk/modalpages/2663.aspx. O site (da “prefeitura” de Londres) contém tópicos que vão desde um auxílio para se comprar uma bike adequada até roteiros para treinamento para competições. Passando por incentivos corporativos para quem vai ao trabalho pedalando, lista com mapa de todas as lojas especializadas em bike da cidade, locais de estacionamento para bicicletas e tudo o que você (principalmente você que pedala aí no Brasil) nunca imaginou que partiria do poder público.

Por causa disso são curiosas as coisas por aqui relacionadas às bikes. A começar pela diversidade de modelos: rodam pelas ruas desde bikes de competição, daquelas usadas em velódromos, que não possuem freios nem catracas até bikes de aparência muito antiga, quase como a nossa Barra-Forte. Bikes com faróis cromados e pára-lamas, clássicas, femininas com proteção para o vestido da ciclista não enroscar na roda traseira, com cestinhas de vime no guidão, as novas dobráveis de aros pequenos que cabem dentro de uma bolsa, as mountain bikes, as bikes chinesas vagabundas, as velhas, as de último tipo, as conservadas, as caindo aos pedaços, as limpas, as sujas, as raladas, as impecáveis.

Os ciclistas acompanham seus veículos: homens de terno e gravata, mulheres de saia e sandálias, gente de tênis, de sapatilha, com jaquetas verde-luminosas, com faixas fluorescentes, com capacetes, sem capacetes, com compras, com crianças, gente de todo o tipo. Pedalam numa boa, todos tranqüilos, uns rápido, outros devagar pela cidade quase plana. Um dia a gente chega lá!

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Bom pessoal escrevi esse texto faz alguns dias. Infelizmente algo muito ruim aconteceu. Na quarta feira passada ao ir à aula, pedalei meus últimos 11,29km com minha bike. Ela foi roubada de onde a deixei, na calçada da Oxford Street, uma das ruas mais movimentadas daqui. Estava com cadeado novo (um cabo de aço de 12mm) e foi a primeira vez que fui com ela para a escola e a segunda vez que a pedalei por aqui (a bike que estava usando era a da Ju, que acabei trazendo antes por uns problemas na desmontagem da minha, ainda em São Paulo). Fiquei muito triste, fiz queixa na policia, fui a um mercado que vende algumas coisas muito suspeitas (acredito que roubadas), mas não encontrei minha companheira de duas rodas. Vou dar um tempinho de bikes por enquanto. Infelizmente.

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de
agosto

Divagacoes sobre estar sozinho 29 de maio 2007

Nunca estive tanto tempo sozinho. Não, calma, isso não é uma reclamação, é apenas um fato novo para mim.

Tenho conhecido muita gente por aqui. Gente de tudo quanto é lado do planeta. Colômbia, Brasil, Venezuela, Jamaica, Granada, África do Sul, Zâmbia, Tanzânia, Etiópia, Nigéria, Egito, Congo, Turquia, Tailândia, Ilhas Fiji, China, Nepal, Índia, Austrália, Uzbequistão, Sérvia, Lituânia, República Tcheca, Polônia, Alemanha, Itália, França, Espanha, Potugal, Irlanda. Gente que às vezes é interessada em conversar e muito legal, que está aqui para estudar inglês, com motivos parecidos com os meus como os colombianos, o tailandês, os italianos, a lituana, o tcheco, alguns chineses e alguns brasileiros. Gente bem mais nova, de cerca de 18, 19 anos que veio para cá com a família, como o português, o cara do Zâmbia (não sei como fala-se a respeito de quem nasce no Zâmbia, desculpem-me). Gente que parece estar aqui só para trabalhar e proporcionar uma vida melhor para si próprio e para seus familiares, como a maioria das pessoas do continente africano. Porém, são poucos os que se abrem para trocar telefones e menos gente ainda se dispõe a fazer qualquer coisa fora do trabalho (até agora não conheci ninguém).

Digo tudo isso pois considero-me bastante sozinho, sem amigos. Porém, estar nessa situação é algo que lhe faz despertar sentidos, sentimentos, modos de agir e de pensar, nunca usados ou sentidos antes. Uma dessas coisas é o fato de conversar comigo mesmo. Sim, conversar em voz alta. Ando pelas ruas muitas vezes tecendo longas e profundas discussões comigo mesmo. Muitas vezes treino o inglês by myself, porém questiono a eficácia, uma vez que as duas partes do diálogo e o professor são a mesma pessoa. Chega a ser engraçado.

Outra coisa que faço muito é reparar nas coisas e nas pessoas. Sem maldade, apenas por distração ou falta do que fazer. Tenho olhos que se mexem muito, gosto de observar, pouca coisa passa despercebida de meus olhos, são muito rápidos. Tenho visto, por exemplo que os ingleses não sentem frio. Nunca. As mulheres andam, ou de sapatos que parecem ser de lona, baixos, abertos quase até os dedos, que deixam todo o peito do pé à mostra ou de sandálias e de calças pelo meio das canelas. Quando estão de sandálias não é legal. Não vi nenhuma inglesa que tivesse um pé, no mínimo, apresentável. Elas têm pés horrorosos, com dedos imensos e unhas pintadas de rosa-choque, vinho, etc., fazem qualquer podófilo ficar amargurado. Muitas usam saias. De todos os jeitos: longas, médias, curtas e curtíssimas. Muitas vezes aprecio. Usam as saias sem meias ou com meias finas, porém de trama larga, geralmente desenhadas (acho que isso é meio moda por aqui). Os homens usam camisas de mangas curtas e camisetas, não importa a temperatura que faça. E bebem, bebem muito. Não se importam com a temperatura da bebida que mais consomem: cerveja.

O comportamento ao voltar do estádio de rúgbi, também é interessante de ser observado e celebrado: apesar de fazerem sujeira com latas de cerveja ou embalagens de comida pelos trens, torcedores de times rivais embarcam em um mesmo vagão, sem nenhum conflito. Os do time vencedor vêm cantando seus hinos e suas músicas, tirando sarro da cara dos perdedores, que reagem com sorrisos ou se deixam importunar, aceitando a derrota. Muito legal de se ver isso.

Outra coisa que observo é a tal da “pontualidade britânica”. A expressão certamente é bem antiga, pois pontualidade por aqui, não é algo levado tão a sério assim. Me permitam o trocadilho, mas essa tal pontualidade mais parece coisa para inglês ver do que uma realidade. Logicamente os horários são muito mais respeitados que no Brasil, onde um atraso de 20 minutos é normal, mas por aqui cinco, dez minutos não fazem tanta diferença, principalmente nos ônibus e nos eventos, coisas que tenho conhecido com mais proximidade.

Escrever também tem sido algo legal e que tem me proporcionado muito prazer. Preciso ter tempo e um pouco de inspiração, mas quando os tenho, dedico-me bastante à prática.

Estar sozinho não é a melhor coisa do mundo mas, como provavelmente tudo, há uma face boa e que deve ser aproveitada.

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de
agosto

Feliz ano novo 28 de maio de 2007

“Feliz ano novo”, foi o que disse a mim mesmo logo ao abrir os olhos na manhã muito fria e chuvosa daquela segunda-feira. Ao deitar na noite anterior havia me despedido dos meus 32 anos.

Foi um bom ano. Senti o que é dividir casa, contas, carro, horários, cama, banheiro, e uma infinidade de coisas que o cotidiano simplesmente se encarrega de nos trazer com alguém que se goste. Não que antes morasse com alguém a quem não gostasse, mas este é amor de homem e mulher, é amor a quem se escolhe (ou se é escolhido) para amar. Esse ano que passou estive cercado por meus amigos que tanto amo, de uma forma que nunca tinha estado – recebendo-os na minha casa, na nossa casinha, como eu e a Ju costumamos chamar. E que gostoso é receber meus amigos em casa. Que gostoso fazer uma boa comida, saboreá-la junto com um bom vinho, com meus amigos, com quem se quer estar junto. Mesmo ao som de músicas de gosto duvidoso (isso para ser educado, pois as músicas eram absolutamente horrorosas) vindas do ex-vizinho da frente de casa, acho que os momentos em que compartilhamos nosso lar com nossos amigos e com as nossas famílias foram maravilhosos.

Este ano que passou viajei muito, conheci lugares maravilhosos. de ônibus, de carro, de bike, de avião. Uma viagem com paisagens e companhias indescritíveis pelo nordeste, uma outra, tal qual, na seqüencia desta pelo caribe, talvez a responsável pela mudança definitiva da forma de ver e encarar o mundo e as coisas que valorizamos (se bem que é injusto jogar tudo em cima de uma única coisa. Fica melhor dizer que foi a gota que faltava para tanto). Foi também um ano de perdas irrecuperáveis com a Bibinha e a Káks, mas que servem para nos alertar de que nada é eterno, como todos nós.

Foi um ano de mudança radical, um ano que precisei de muita coragem para tomar certas decisões que tenho absoluta convicção que foram bem tomadas: nos trabalhos, na vinda para cá. Hoje voltando para casa após uma breve visita ao Museu de História Natural, abreviada pela tamanha quantidade de gente que se espremia pelos seus corredores repletos de coisas interessantíssimas e maravilhosas, que explicam, ou tentam uma explicação sobre o que somos, onde vivemos, o que estamos fazendo por aqui e até quando, vim pensando que não haverá por aqui desafio maior do que o que eu já transpus, que foi exatamente o fato de ter vindo para cá, sozinho, sem minha Amiga/referência/amante/porto/linda Ju. Isso já foi transposto, tá feito. Absolutamente tudo o que eu for fazer aqui será café pequeno, será leve como madeira balsa.

Feliz ano novo para mim, ou também, com um lapso de humor negro auto-destrutivo pensei no trocadilho feliz ano, velho. Porém, como pensei ao levantar e imaginar um telefonema de minha avó, sempre carregado de discursos a respeito da minha felicidade, de minhas realizações e de uma pergunta que todo ano se repete: “como se sente com 33 anos?” Hoje, Vovó, com 33 anos me sinto exatamente como me sentia com 32, 22, 18, muito bem, apenas com uma visão talvez um pouquinho mais apurada das coisas, mas jovem, capaz de tudo e agora com uma novidade, em qualquer lugar do mundo. Obrigado a todos que escreveram, ligaram ou simplesmente lembraram do amigo distante no dia 28 de maio de 2007. Valeu!

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de
agosto

Lembrando dos Amigos 22 de maio de 2007

Hoje escrevendo um e-mail para uma amiga, a Regiane, em resposta a uma questão que ela mencionava que poderia estar esquecendo de meus amigos brasileiros por conta de estar conhecendo muita gente aqui disse a ela “Muito pelo contrário, Re. Cada coisa diferente que vejo por aqui relaciono com algum amigo que tem mais afinidade com o objeto observado”.

Achei interessante escrever sobre uma coisa que vi e me fascinou da mesma forma que acredito irá fascinar especificamente dois caras que são meus irmãos: Duda e Sobral. Segue a história.

Estava eu atrasado, numa cinza (lógico) manhã de domingo indo a um trabalho no estádio de rúgbi de Twickenham, ao sudoeste de Londres. Desembarquei do “tube”, o metrô daqui, na estação Waterloo para pegar o trem que me levaria até o referido estádio. Uma viagem de cerca de 20 minutos. Naquela hora da manhã, cerca de 7:40 com frio e céu nublado não eram muitas as pessoas que embarcaram no mesmo trem que eu. Escolhi um lugar ao lado direito de um dos vagões e sentei-me à janela. Era a segunda vez que ia a este mesmo estádio, porém, na primeira fui com um pequeno grupo de pessoas que iam trabalhar juntamente comigo no mesmo local. Fomos conversando e tudo o mais. Dessa vez foi diferente: além de não ter com quem dialogar, havia esquecido meu livro, na pressa de sair de casa. Pus-me, então, a observar a paisagem do caminho sem nenhuma pretensão. Como já havia comentado aqui no blog, Londres além de muito plana é muito padronizada. Após a segunda guerra, quando foi quase que completamente arrasada, principalmente pelos bombardeios aéreos de Hitler, a cidade foi toda reconstruída ao mesmo tempo, ou num curto espaço de tempo, o que lhe conferiu uma arquitetura padrão. Fatos históricos à parte, imaginem o meu interesse em olhar uma paisagem uniformemente construída, com sono, numa manhã fria de domingo. Porém, ao avistar no horizonte uma construção, meu estado de latência se quebrou e quase que grudei na janela para ver e ter certeza de que aquilo que meus olhos estavam vendo era realmente a construção que eu conhecia. Sim, era. Na mesma hora pensei: “acho que uma das primeiras coisas que mostrarei ao Duda e ao Sobral quando estiverem aqui será isso”.

Explico e descrevo minha visão. Quando olhei para o horizonte naquela hora, observei quatro imensas chaminés brancas dispostas em alinhamento retangular. O trem, ao se aproximar da construção, me permitiu vê-la com mais detalhes. Cada chaminé estava apoiada numa torre de aresta quadrada, com topo em formato piramidal. As quatro torres eram ligadas por paredes imensas, com janelas bem pequeninas (ao menos à distância em que eu estava pareciam) que formavam efetivamente um imenso retângulo. Todas as pareds, inclusive as das torres eram de tijolinhos de barro (como quase todas as construções daqui). Alguma coisa faltava, no entanto, para completar aquela imagem e deixá-la da forma que conhecia até então. Faltava ali um porco cor-de-rosa voando entre as duas chaminés de um dos lados pequenos do retângulo. Aí sim, iria estar formada a imagem que há muito conhecia, mesmo sem nunca ter pisado nem mesmo nas proximidades daquele local.

Provavelmente a essa altura da minha narrativa o leitor que não esteja muito atento, ou então, que não conhece muito a discografia de uma das melhores bandas de rock progressivo que já existiu em todos os tempos, não tem a mínima idéia do que estou falando e peço-lhe desculpas. Porém, o que acabara de avistar no horizonte é a antiga fábrica que ilustra a capa do álbum Animals do Pink Floyd (por isso o porquinho voando). Segundo um garoto português que voltava comigo nesse mesmo dia, na mesma linha de trem, essa foi uma fábrica de material bélico construída na segunda guerra. Um triste passado da história mundial, muito sentido ainda pelos ingleses. Fabricavam-se naquele local, principalmente bombas, granadas, balas e toda a porcaria que se necessita utilizar para matar quem não se conhece durante a guerra.

Passado à parte, fiquei muito emocionado ao ver a construção e acredito que meus dois irmãos também ficarão do mesmo jeito ao vê-la. Impressiona mesmo. Agora todos os dias que vou trabalhar em Twickenham fico um pouquinho mais acordado e tento observar um pouquinho mais a capa de um dos melhores álbuns do Pink Floyd.

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de
agosto

Surpresas de London, London 21 de maio de 2007

Londres é realmente uma cidade surpreendente. Não apenas pelos monumentos, pela vida agitada, pelos carros na contra-mão. O clima daqui merece um capítulo à parte.

Desde que cheguei (e lá já se vão 20 dias contados) tinha visto céu azul apenas três vezes. Sem brincadeiras. Hoje, no entanto, um dia completamente o oposto de ontem, fez um sol lindo, um céu muito azul e o que não sentia há muito, calor. Que maravilha! Ou oito ou oitenta: ontem a temperatura não passou dos 16 graus. Acredito que hoje esteja em, pelo menos 25.

O sol e a luminosidade daqui também são coisas de se estranhar, a começar pela posição do astro rei ao longo do dia. No Brasil, por mais inverno que tenhamos, o sol se levanta bastante do horizonte e permanece no céu por um período de 10 a 12 horas, sei lá. Por aqui isso não acontece. Estamos a dois meses do verão, o que equivaleria no Brasil estarmos no mês de outubro. Porém, os raios de luz brilham intensamente desde as 5 da manhã, e escondem-se completamente apenas após as 9 da noite. Acordo todos os dias antes do meu celular/despertador, achando que ele não tocou, mas não, é cedo mesmo. Ainda que conte com cortinas grossas e escuras no quarto (a Ju é quem não vai gostar disso) a luz, como é muito intensa, já nas primeiras horas da manhã, influi em meu sono. Quero ver no verão em si. Vou dormir umas quatro horas por noite, provavelmente.

Faço uma pequena interjeição no texto para falar um pouco sobre os ingleses e a praticidade das coisas projetadas pelos próprios. Talvez eles devessem ocupar o lugar que os nossos patrícios portugueses, injustamente, ocupam nas piadas e nos dizeres aí por nossa terra. O motivo da minha assertiva está em diversas coisas que nos cercam no dia a dia. O tamanho e a forma das tomadas dos aparelhos elétricos daqui, o tamanho das torneiras das pias das cozinhas e muitas outras coisinhas que, na realidade não atrapalham, mas poderiam ser mais… digamos… inteligentes. Separei duas dessas coisinhas para comentar com mais atenção. A primeira são as portas. Todas, absolutamente todas as portas por aqui abrem ao contrário. E você pode rebater dizendo que não há um jeito único para uma porta abrir. Concordo, mas há uma maneira inteligente de fazer com que elas abram para um determinado lado que irá poupar e aproveitar espaços de um ambiente. Arquitetos, decoradores e simpatizantes devem concordar comigo, suponho. Porém, como ia dizendo, as portas abrem para a parte central dos ambientes. É assim na porta de entrada, em meu quarto, no banheiro, na cozinha. Era assim na casa do Ale e da Carol, é assim na escola de inglês e em todos os lugares. Ah, e um detalhe: as maçanetas não se localizam na lateral da porta facilitando sua abertura e fechamento devido a um fator da física chamado de “momento torçor”, mas localizam-se absolutamente no centro das mesmas. Incrível a esperteza!

Mas que diabos as portas têm a ver com o resto do texto? Calma, eu vou chegar lá. Outra coisa que parece estar errada é relativa ao transporte público. É que da mesma forma que a posição das portas, parece que não se pensou para o transporte público uma maneira de proporcionar conforto aos seus usuários (nós) nas diferentes condições climáticas que Londres está sujeita (viu, disse que chegava lá). Os ônibus possuem algumas janelas que abrem, porém, não pensem que são as janelas corrediças como conhecemos. A parte da janela que se abre é quase uma fresta de cerca de 20cm de altura, no topo da grande janela de vidro. É na verdade um vidro basculante que não resolve muita coisa acerca da temperatura interna do coletivo. Além dos ônibus, algumas linhas do metrô não possuem janelas! Mesmo nos dias frios, quando se entra num trem desses, vestido para encarar o (puta) frio que faz nas ruas, passa-se mal de calor até seu destino final, vê-se obrigado a despir-se dos casacos e das blusas de lã. De novo: quero ver no verão! E depois a gente fica espantado que eles por aqui morrem de calor. Vai entender, “oh, raios” ou deveria dizer “wow, lightinings”.

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de
agosto

Meu amigo incomunicável 20 de maio de 2007

Nunca imaginei que um cachorro fosse capaz de proporcionar tamanho vazio. Nunca pensei também, que as imagens nos trouxessem tanto. Um desatino meu não perceber isso, pois concentramos muito do que somos, fazemos, temos nesse nosso sentido, a visão.

A vida aqui em Londres tem ido bem. Talvez as primeiras duas semanas tenham sido mais difíceis do que imaginava. Talvez seja precoce falar isso agora, que completo três semanas de vida londrina. Mas, em suma, digo isso, pois o que na realidade quero transmitir é que estou bem melhor que no começo da viagem (isso é uma viagem? Falando assim “começo da viagem” dá sentido de férias… sei lá). Após uma conversa com a Ju, que se iniciou no MSN e terminou ao telefone, na qual ela me abriu os olhos para as coisas que estavam acontecendo por aqui aceitei mais minha condição, a de estrangeiro numa cidade desconhecida, que oferece muito, que proporciona muito… mas isso é outro assunto.

Então, mesmo tendo superado a crise da chegada, me inserindo mais na cidade, indo aos parques, pedalando pelas ruas, quando ligo o computador e me aparece em close aquela carinha amassada do Paco (o referido cachorro do início do texto) dormindo me dá um nó na garganta. É incrível. Vejo os lugares que tenho conhecido, os parques, o próprio prédio onde estou morando, que conta com uma área verde e um riacho… e logo imagino o Paco, o moleque, brincando, correndo, se atirando n’água, latindo para chamar a atenção. No metrô não é diferente. Não que tenha resgatado o Paco do metrô de São Paulo, ou que aquele tipo de transporte remeta meus pensamentos e lembranças ao bicho. Mas é que por aqui as pessoas levam seus amigos peludos no metrô.

O que pega são duas coisas, uma que eu já sabia, que é o fato dele, o Paco, não saber o que aconteceu com seu “papai”. Tenho um certo receio de ser esquecido ou de ser substituído. Talvez um pouco de egoísmo, sim, mas era muito bom ser querido por ele. A outra coisa, não sabia e acredito que a distância me fez atinar: com todas as pessoas queridas que deixei por aí, consigo me corresponder, não todo dia, de fato, mas sabemos o que acontece em nossas vidas. Com meu bicho não. Apenas algumas vezes o vi na câmera. Cara de quem não entende nada, nenhuma interatividade, lógico. Impossível a comunicação. E isso me emociona e me enche de saudades.

Você pode estar se perguntando: “ – Mas já que você é tão chegado, tão próximo ao seu cão, porque não o levou consigo?” Aqui na Inglaterra, existe um critério rigorosíssimo para a entrada de animais de estimação vindos do exterior. Teria que fazer no Brasil o seguinte: vacina anti-rábica (sem problemas, ele é vacinado), exame de sangue comprovando o efeito imunizante da vacina, laudo de um médico veterinário credenciado pelo Reino Unido e implantação de chip para armazenar todos os dados sobre o bicho. Chegando aqui eu, necessariamente, seria obrigado a internar meu amigo numa espécie de albergue onde ele deveria permanecer seis meses (não, não errei o texto, nem você leu errado, são seis meses) em “quarentena” pela bagatela de cerca de 2.500 libras, o que a grosso modo é o equivalente a R$ 10.000. Pensei em chegar aqui e tentar um “jeitinho”. Me deparei por acaso com uma notícia no jornal que o técnico português do famoso time de futebol Manchester United, foi preso por estar morando em Londres com seu yorkshire vivendo por baixo dos panos. Que tal? A mesma notícia, no entanto, trouxe uma boa notícia, possível de ser realidade. Estuda-se um método por aqui de aceitar animais de estimação do exterior nos padrões da União Européia, que, parece que exige uma quarentena de 21 dias. Esperemos para ver no que dá.

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agosto

A busca por um lugar ao sol II 12 de maio 2007

Minha busca por uma casa havia mudado. Mudou também a faixa de valor (que na verdade era a mesma, se imaginarmos que é um local para dois) e além disso, felizmente, mudou radicalmente o nível das pessoas e dos lugares.

Fui numa tarde num apartamento onde havia um quarto para casal a ser disponibilizado. O lugar era fantástico, chama-se Litle Venice, zona 1, excelente localização. A única coisa contrária: era habitado por brasileiras. Nada contra meus compatriotas, obvio, porém, dividir a casa com alguém que fale português é um obstáculo ao aprendizado de uma nova língua. Mas como o local era muito bom, fui. E era muito bom. O apartamento novo, de dois andares, ficava de frente a um lindo canal (um antigo rio) que dava ao local realmente a impressão de se estar numa pequena Veneza. O quarto a ser locado era bem iluminado, as meninas que moravam lá aparentemente eram legais e o valor compensava a localização (não pelo capricho ou status, mas o transporte público dentro da zona 1 torna-se muito mais barato que o transporte através de diversas zonas da cidade). Porém , tomando chá com a Ana Amélia, uma das locatárias, fiquei sabendo que “por engano” o quarto foi anunciado para dois. Elas preferiam locar apenas para uma pessoa, claro, melhor para elas, sendo que o valor seria o mesmo. Acho que conseguiram, pois não ligaram para mim dizendo que eu seria o feliz escolhido a dividir o apartamento com elas. Paciência.

Cerca de dois dias depois recebi uma ligação no celular (sim, esqueci de mencionar que tenho um celular britânico – na verdade apenas um chip da empresa O2 o aparelho já tinha) de uma mulher, Sandra, aparentemente inglesa que retornava um dos inúmeros e-mails que enviei. Muito simpática foi muito paciente com meu parco inglês que por telefone, sem qualquer expressão corporal, torna-se ainda pior. Marcamos de nos encontrar naquele mesmo dia, ou melhor, noite, às 23h pois pelo que eu havia entendido ela trabalhava em um cinema e seu único horário disponível seria este. Topei. O Alê foi junto comigo até a estação de metrô e terminal de ônibus de Golders Green, onde havíamos marcado com a Sandra. Ela nos encontrou ao sair do metrô. Tão simpática quanto pelo telefone foi nos giando até o prédio enquanto conversávamos. Ela é irlandesa, trabalha não num cinema, mas como maquiadora no teatro. Chegamos ao prédio, bem localizado, numa grande avenida, a North Circular Road, esquina com a Brent Street, no bairro de Golders Green. Apesar da grande avenida na frente o barulho não incomodava quem estava no apartamento, pois além de estar localizado no terceiro andar, é de fundos. Gostei do apartamento e senti que Sandra é uma boa pessoa, fora o fato de falar inglês, o que certamente ajudará muito, tanto eu quanto a Ju. De cara disponibilizou a casa para se fazer o que quiser: “- Eu não me importo com nada.”, disse ela. “- Se quiser trazer sua família, seus amigos, para passarem um tempo aqui em casa, sinta-se a vontade. Faça tudo o que quiser por aqui pois esse apartamento será tão seu quanto meu.” Fora a liberdade, o fato de se demonstrar interessada em não apenas dividir o apartamento, mas compartilhar uma amizade, foram fatores decisivos para que eu fechasse com ela.

Ao retornar para a casa do ale e da Carol aquela noite me senti tranqüilo. Avisei a Ju que havia arranjado um lugar. A vinda dela estava mais segura e minha vida por aqui estava para começar .

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agosto

A busca por um lugar ao sol I 12 de maio de 2007

Que ironia do título desta seção. Londres provavelmente seja a cidade com maior quantidade de tons de cinza no mundo e com a maior diversidade de tipos de chuva em um mesmo dia que qualquer outra. Porém não é sobre assuntos relacionados ao clima que desejo escrever.

A minha idéia ao chegar por aqui era: ficar pouquíssimos dias, o menos possível, morando de favor com o Ale e a Carol, o que duraria até encontrar uma casa para compartilhar com outras pessoas. Imaginei três ou quatro dias. Bom, quanto ao período de permanência já é de conhecimento de vocês que errei feio. Mas por que?

Existe um site muito conhecido por aqui e por quem vem para cá que se chama gumtree. É um local onde se anunciam diversos tipos de habitações numa infinidade de locais. Há muitos anúncios no gumtree, atualizado algumas vezes por dia.

Porém, muita coisa que se anuncia por lá é uma grande furada. Não pela qualidade do site ou má fé de seus proprietários, mas por serem locais muito ruins. Para se ter uma idéia visitei um apartamento onde os atuais locatários pretendiam dividir um quarto. Pois bem, feita a pré seleção, baseado nas informações de meus anfitriões sobre o local, fomos até lá para conferir as acomodações. Desculpem-me os leitores que não conhecem o bairro do Cambuci em São Paulo, mas certamente devem conhecer locais parecidos em sua cidade. O “apartamento” era exatamente como um cortiço do bairro do Cambuci. O prédio inteiro, aliás. Num cubículo no porão do prédio, um quarto era dividido por quatro rapazes (três, no caso, o quarto rapaz seria a pessoa que se interessasse pela vaga anunciada). O apartamento era um convite à demolição: ao adentrar a porta um corredor com o piso irregular coberto por um carpete azul marinho, apenas sobreposto ao chão terminava no quarto a ser sublocado. Antes do quarto, duas portas à esquerda, a primeira num ângulo de 90 graus junto à porta de entrada dava acesso ao único banheiro do lugar, com azulejos azuis-turquesa e um vaso sanitário da mesma cor, porém manchado, provavelmente pelo tempo e falta de limpeza. Havia também uma banheira antiga, manchada também, que fazia as vezes de Box, pois havia um chuveiro instalado sobre a mesma. Mais adiante no corredor a segunda porta dava acesso a uma sala com janelas bem altas e não muito grandes protegidas por grossas barras de ferro abrigava um sofá que parecia ter sido retirado do lixo e uma TV. Dessa sala, à esquerda, portanto junto à parede do banheiro, havia uma “cozinha” com um fogão, duas geladeiras pequenas e panelas sobre a pia que ficava sob a janela alta (lembrem-se que estávamos num tipo de porão). No quarto, quatro camas ocupavam quase todo o espaço. Duas de um lado e duas do outro, uma alinhada atrás da outra provinham tranqüilas e saudáveis noites de sono aos seus ocupantes. Havia um pequeno armário também que acabava por ocupar o resto do espaço livre do cômodo, sobrando apenas um pequeno corredor para quem quisesse acessa as camas do fundo do quarto.

Então, vi que realmente achar uma casa seria uma tarefa complicada. Conversando com a Carol, cheguei a conclusão que seria muito mais inteligente começar a buscar um lugar que servisse de casa para mim e para a Ju, mesmo que isso custasse mais, porém, ela chegaria já com tudo pronto e não teríamos que nos preocupar com isso.

12

de
agosto

Lavando a louça suja 09 de maio de 2007

Meu sentimento em relação à agência de empregos Blue Arrow estava correto. Apesar de ter preenchido um imenso questionário sobre tudo o que você possa imaginar que se refere a trabalhos em cozinhas e como garçon, no chute pois não sabia a metade do que estava lá, me chamaram para um primeiro trabalho no mesmo dia em que fui fazer um tipo de uma entrevista. Eram quase 12h e Anne, a senhora que me entrevistava disse: “- Tenho hoje um trabalho às 16h num estádio de futebol. Você aceita?” e me olhou com cara de quem dissesse “E aí, vai encarar?”. “- Aceito.”

Saí da agência na correria. Precisava providenciar um uniforme, ou melhor, comprar camisa branca de mangas compridas, calça social preta, meias pretas e sapatos pretos. Compensava? Sim, conseguem-se roupas aqui muito baratas. Desorientado, fui até a casa do Ale e da Carol, pois não sabia onde comprar tudo isso. A Carol se prontificou a ir comigo na Primark, uma loja tipo C&A, que vende de tudo muito barato.

Achei uma camisa, porém a numeração das calças por aqui é uma coisa à parte. Há variação no comprimento, na largura da cintura e acredito que na largura das pernas também. Demorei um tempão para achar uma que ficava mais ou menos. Comprei as meias também. Ainda faltava o sapato. Eram 15:00h e precisava estar num local muito longe às 16. Ainda precisava fazer uma barra na calça, tomar um banho, fazer a barba e comer alguma coisa… não ia dar. Da loja onde procurava um sapato liguei para agência e tive o primeiro contato com a estupidez britânica ao dizer que não conseguiria chegar a tempo: “-Se você não for, nunca mais trabalhará para nós.” Disparou categoricamente a mulher que me atendeu. Desencanei do horário. Comprei mesmo assim o sapato, votei para casa fiz a barra na calça com durex (óbvio) e fui de táxi até o estádio. Um trânsito absurdo. Cheguei eram mais de 5 da tarde. Sem problemas, ninguém falou nada e muitos ainda estavam chegando. Ótimo. Fui direcionado com mais dois rapazes a um dos restaurantes que funcionava no estádio. Uma coisa inimaginável para nós brasileiros. No caminho até o restaurante que eu trabalharia, passei por um corredor que dava acesso às tribunas de honra. Tudo acarpetado, muito luxo, cada tribuna com uma visão espetacular de um gramado que parecia colorido artificialmente, possuía uma mesa posta com diversos talheres, copos, taças. “se tiver que trabalhar aqui será meu primeiro e último trabalho para essa agência” pensei, pois certamente não faria tudo como um profissional, claro. Porem seguimos e adentramos num local que parecia um restaurante, ainda com o mesmo carpete, porém, menor quantidade de louças nas mesas, mas com cadeiras acolchoadas e com brasões do clube bordados em dourado. Passamos desse restaurante e chegamos em outro (para se localizar, imagine que eu estava entre a arquibancada inferior e a superior do estádio dando a volta no campo em sentido anti horário, ok?). Esse um pouco mais simples continha uma mesa de comidas self service e um balcão de bar, porém tudo muito sofisticado. Paramos no bar, os três, e uma moça negra veio falar conosco: “- Onde vão trabalhar? Alguém falou para vocês?”. Não, ninguém havia nos dito nada. Ela, então deu as opções após fazer uma cara de descontente: servir os clientes ou lavar copos. De cara me ofereci para lavar os copos. Não fazia nem uma semana que eu estava por aqui, não conseguiria entender o pedido dos clientes. Não fui contestado. Apesar de dispor de água quente, digo a vocês que foi dureza. Nem tanto pelo serviço ou por ter que passar cerca de 7 horas de pé (por favor, muita atenção agora), mas por ter trabalhado com três negros. Racismo? Sim, porém, não meu. Imagine, nunca tive absolutamente nada contra os negros, aliás acho uma grande babaquice alguém se sentir superior ou inferior por causa da cor da sua pele. Mas acho que meus colegas não compartilhavam da mesma opinião.

Foram sete horas, praticamente sem falar com ninguém e ninguém falar comigo. Concentrei-me que aquilo era apenas um bico, que não precisava, que terminaria logo e assim foi. Compensou por duas coisas: na hora do jogo, entre Manchester United e Chelsea (acho) jantamos a deliciosa comida que estava sendo servida aos sócios do clube e vi alguma cenas do jogo, um bom jogo, de um excelente local. Voltei para casa cansado, mas com algumas certezas em mente: uma - o racismo por aqui existe e por mais que você não queira você faz parte de um dos lados e duas – tenho que melhorar rápido meu nível de inglês para poder trabalhar com algo mais interessante que esse.

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