BLOG DO FÁ SAMORI

As experiências, sensações e aventuras de alguém que saiu do Brasil para experimentar o mundo.

22

de
agosto

London to Mallaig I

Chegamos nessa extremidade noroeste da Escócia após cerca de dezesseis horas de viagem, vindos de Londres.
A última lembrança de Londres nos afasta ainda mais daquela cidade: na rodoviária, a impressão de que a empresa de ônibus National Express havia vendido mais passagens do que a quantidade de poltronas nos ônibus. Uma massa de gente se acotovelando para poder pegar um lugar no ônibus que havia acabado de estacionar no ponto de embarque. A Ju e eu, brasileiros que somos, conseguimos nos esgueirar pela montoeira de gente que reclamava, bufava, não se conformava e embarcamos após termos deixado a enorme mala, uma mochila grande e minha bicicleta dobrável no porta malas do coletivo. Porém, uma surpresa: sem lugares marcados não havia lugares juntos, assim sentamos separados. Muito chato. O ônibus um horror: poltronas estreitas, que reclinavam quase nada aumentavam nossa indignação. Para uma viagem que duraria 8 horas pela madrugada não seria nada fácil naquelas condições. Mesmo assim, o ônibus partiu, acredito que deixando muita gente na rodoviária a ver navios (ou seriam ônibus?). Até hoje, passada uma semana do ocorrido a Ju e eu nos perguntamos: “o que custa a eles venderem passagens com lugares marcados como se faz no Brasil?” Mais uma trapalhada inglesa para a listinha.
A viagem foi cansativa sim: sentei ao lado de um indiano que ficava se encostando em mim. Como não havia apóia-braço entre uma poltrona e outra o jeito era um “excuse me, sir” para acordá-lo e fazê-lo perceber que não estava em sua casa. Muito chato! Um senhor árabe, à frente roncava feito um porco. Uma hora ele deu uma pausa no ronca-ronca pois mudou sua posição levantando seu braço esquerdo e apoiando-o sobre a testa. Não sabia o que era pior: o barulho de seu ronco ou o odor que emanou após levantar o braço. Que nojo!
Chegamos em Glasgow às dez para as sete da manhã, finalmente. O frio era cortante e tentamos nos abrigar num banco da rodoviária. Fui comprar os bilhetes para Mallaig e a primeira boa impressão escocesa: fui muitíssimo bem atendido pelo funcionário da City Link a empresa de ônibus que faz o trecho. Cordial e simpático, sem a cara fechada e a cordialidade forçada e mecânica dos ingleses ele explicou com muita paciência e um inglês totalmente diferente que teríamos que trocar duas vezes de ônibus.
E assim seguimos. A estrada até Fort William é absolutamente maravilhosa, atravessando as Highlands. Montanhas belíssimas, muito diferentes das brasileiras pois a vegetação daqui é composta apenas por gramíneas, rasteira. Assim é possível ver com nitidez os desenhos esculpidos por milhares de anos pelas águas que escorrem pelas encostas semi-nuas e deságuam em rios turbulentos e cristalinos. Paisagens de sonhos, de filmes épicos, de cartões postais. Infelizmente o ônibus não pára para fotos, mas quem passa por estes lugares com seu carro, moto ou bicicleta (muitos cicloturistas por aqui) param em pontos especialmente preparados para tanto. Chegamos em Fort William e trocamos pela segunda vez o ônibus (a primeira foi uma troca no meio da estrada, num povoado pequeno, o qual esquecemos completamente o nome rebuscado. Dessa vez pegamos um micro-ônibus guiado por Mr. Jack, um senhor muitíssimo simpático que dá a impressão de conhecer todos os moradores e lugares da região. É quase um guia turístico. Conosco estavam um grupo de mochileiros franceses, dois garotos belgas (mochileiros, também), uma senhora e um senhor (provavelmente daqui). Todos os mochileiros conversaram com Mr. Jack para saber dos melhores pontos para se descer e curtir os lugares nos desembarcariam. Porém, presenciamos e vivenciamos com enorme prazer e felicidade a diferença absurda de se estar em um lugar pequeno com pessoas educadas e em paz com a vida e se estar em uma grande e caótica ônibus no acostamento da mão oposta. A Ju, eu e os belgas nos entreolhamos e não entendemos nada. A seguir o motorista pôs o ônibus em marcha ré fazendo-o entrar por uma porteira que estava aberta e subir por uma estrada até uma casa que a vegetação (nesse trecho mais alta) encobria. Parou em frente a porta de entrada. Era a casa da senhora que estava no ônibus e tinha certa dificuldade para andar. Ele desceu, ajudou-a a descer do ônibus, retornou, pegou as compras que ela havia feito em Fort William, levou até a cozinha da casa, se despediu e retornou ao ônibus, que retornou ao seu caminho. Fantástico! Onde e quando poderíamos ver uma coisa desse tipo numa grande cidade? Começávamos a gostar muito do que estávamos vivendo…

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1 Comentário »

  1. Comentário por Pap´s — 22 de agosto de 2007 (14:08)

    Achei que a venda de passagens, a mais que os lugares disponíveis fosse exclusividade de paises do 3º mundo…ah…ah…ah.. Putz Fá e o cheiro do arabe heim, era muito ruim mesmo? Vc não desmaiou?
    Ciao filho, boas aventuras.

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