12
de
agosto
Things to do in London when you are not dead I
Nunca me conformei com a idéia de alguém com formação universitária, muitas vezes com pós-graduação, etc, sair do Brasil para ganhar a vida realizando serviços que em qualquer hipótese realizaria na terra natal.
O mundo realmente dá voltas e aqui estou eu. Exatamente o descrito acima. Que coisa incrível. Nunca tinha atinado, nunca tinha aberto qualquer canal em relação a esse assunto para que o aceitasse numa boa… até vir para cá, ou melhor, até surgir e abraçar a idéia de.
Realizar serviços como garçon, barman, vendedor de bebidas, etc., como vocês que acompanham o blog já sabem, tem possibilitado contatos, mesmo que breves, com culturas com as quais nunca, nem ao menos almejei ter; aprender e praticar o inglês e conhecer lugares incríveis, dos quais a maioria, talvez raramente tivesse a oportunidade de conhecer.
Vocês já sabem do estádio de futebol e do estádio de rúgbi, ambos impecáveis com assentos numerados, gramados perfeitos, bares e lanchonetes por todos os cantos e paz entre os torcedores; mas alguns outros locais e eventos não devem ser deixados de ser descritos e relembrados.
Por ordem cronológica, o primeiro destes locais foi o Royal Albert Hall. Um tipo de teatro, antigo, construído no século XIX, de frente para o Hyde Park, numa das regiões mais chiques da cidade (pelo menos do que conheci até agora). Um local onde ocorrem óperas e espetáculos mais refinados. Uma construção imponente, de tijolinhos de barro (como quase tudo por aqui), circular, toda decorada com vitrais, estátuas, frases em latim, uma maravilha de lugar, parece até um castelo.
Como em todo o trabalho, chega-se ao local sem se ter idéia do que se fará: se o serviço será o de servir pratos, bebidas, ficar na cozinha auxiliando chefs, lavando louça, ou qualquer outra atividade que não se exija um Q.I. muito alto.
Nesse dia, no Royal Albert Hall, serviríamos pratos. Um frio na barriga por causa de um pensamento: “num local chique como esse, imagine se derrubo comida em cima de um convidado? E se não entendo o que pedem. O que farei?” O medo, não é, obviamente, pelas conseqüências de um acidente ou de uma incompreensão. Também não é pela repreensão que sofreria pelos chefes (que na maioria das vezes são pessoas com menos instrução e educação que eu e, talvez por esse motivo são extremamente estúpidos) por causa do ocorrido. O receio está mais ligado a uma frustração decorrente da falta de capacidade de uma simples comunicação com um convidado ou da falta de prática em servir a comida. Porém, um alívio: o esquema da noite é servir pratos prontos, já preparados e decorados pelos chefs. Para facilitar ainda mais, todo o time de garçons foi dividido em equipes, cada uma com um “team leader”, uma pessoa já experiente. Basta segui-lo e fazer o que ele faz. Então, é só aproveitar para conhecer o local. Naquela noite, o jantar servido a um grupo seleto de convidados, tinha, provavelmente o caráter de amparo social. Precedia o jantar um espetáculo musical com gaitas de fole, que eu nunca havia visto ou ouvido ao vivo, provavelmente, este aberto ao grande público. Fiquei sabendo que cada pessoa que servimos nesse jantar pagou a bagatela de 500 pounds!
Ao adentrar à sala de espetáculos, propriamente, fiquei maravilhado: as cerca de 30 mesas redondas, cada qual para 10 pessoas estavam dispostas na frente do palco. O palco e as mesas ocupavam uma área circular, bem no centro de toda a sala e eram cercados por três andares de camarotes, alguns fechados com cortinas também vermelhas, outros abertos, que possibilitavam ver um “quase nada” da decoração, com papel de paredes com apliques em dourado e abajures suntuosos. Estes, por sua vez eram cercados por cadeiras estofadas de couro vermelho, localizadas no último andar.
A iluminação do ambiente também era espetacular, com efeitos visuais (inclusive algumas propagandas de prováveis patrocinadores ou apoiadores) projetados no altíssimo teto da sala e em anteparos circulares suspensos por cabos de aço.
A quantidade de talheres, taças e adereços em cada mesa era uma coisa inimaginável, ao menos para quem não está acostumado com toda essa pomposidade. Tudo muito chique, muito bonito de se ver.
Realizamos os atendimentos às mesas durante cerca de duas horas e ao terminarmos fomos dispensados. Pensei que um dos gerentes havia falado que podíamos assistir ao show que iniciaria após o término da refeição, mas me enganei. Não pudemos ver o show, mas paciência. Valeu por ter visto os ensaios e conhecido este lugar.
Fui também a um espaço de reuniões e jantares chamado Stattioneers Hall. Acho que esse local não é só um espaço, mas é a sede de um tipo de ordem, um ramo da maçonaria, sei lá. Um local próximo à Catedral de St. Paul, o bairro onde Jack, o estripador atuava. Típico de filmes: vielas muito estreitas, becos, ruas tortas, fáceis para se perder. As “moças” vítimas do Jack também facilitaram as coisas para ele ao estarem por ali. Digo o Stationeers Hall deve ser a sede de alguma ordem, pois nas paredes, a maioria revestida por madeira escura (provavelmente extraída da alguma colônia britânica) repousam diversos retratos a óleo de homens que fizeram parte da história daquela ordem, ou local. Uma infinidade de brasões, escudos, bandeiras hasteadas e listas com nomes e datas importantes de sua história (a data mais antiga que percebi foi a de mil, quinhentos e alguma coisa) também compõem a decoração. Fui duas vezes neste mesmo local. Na primeira trabalhei cerca de 15 horas! Atendi a dois eventos: o primeiro, de dia foi uma rodada de apresentações da indústria de embalagens promovida pela Universidade de Cambridge. O segundo, à noite, um jantar luxuosíssimo, que seguia o mesmo padrão de servir que no Royal Albert Hall, porém, neste cada garçon era responsável por sete convidados. Fui meio desajeitado ao retirar os pratos dos convidados. Uma tensão, preocupado em não deixar cair garfos e facas sujas em cima de ninguém, mas tudo tranqüilo. A outra ocasião em que trabalhei por lá foi um almoço, nos mesmos padrões do jantar, porém, não servi comida, mas bebidas. Achei melhor, não precisava tirar os copos nem pratos. Era só saber servir a água, o vinho branco, o vinho tinto e o vinho do porto em suas respectivas taças, que tudo ocorria bem.

