12
de
agosto
Rickshaw II Descobertas e Impressões
E assim foi feito. Peguei o rickshaw número 77, amarelo. Saí do subsolo do hotel, obviamente pegando uma subida e senti que a relação era bem reduzida. Ótimo, pois em subidas com passageiros não terei que fazer muita força. Eram cerca de quatro e meia da tarde, sol forte. Assim que saí do estacionamento do hotel e entrei na rua senti um outro fator que até então não havia passado pela minha cabeça: o vento. E como venta aqui nessa terra. E como o vento segura essa geringonça. A capota funciona quase como uma vela de barco. E quem disse que o vento sopra ao seu favor? Ok, sem problemas. Venço o vento. Estava nervoso, temeroso melhor dizendo. Não sabia dos lugares, não sabia dos nomes. Estava com o guia em mãos, mas nunca se sabe. Cheguei ao centro e comecei a circular. Onde fico? Como me porto? Tudo novo, tudo inédito. Excelente sensação. Tudo a se aprender e a se descobrir.
Ao dobrar uma esquina subindo em direção a Covent Garden um menino acompanhado de outra criança e duas senhoras, fez sinal para mim. Meus primeiros clientes! “Quanto para ir até Leicester Square?”, disseram.
Um branco. Que respondo? Onde está a Leicester Square em relação a este lugar mesmo? “Hummm… two pounds” respondi. Mas precisava de mais um rickshaw pois eram 4 passageiros. Imediatamente passou um garoto com seu rickshaw. Fiz sinal, ele parou e informei o preço que eu já havia cobrado. Ele fez uma cara estranha, como se dissesse “só isso? Porque?” mas parou e levou uma das senhoras e a menina. Ótimo pois foi só segui-lo. Era perto, e no fim das contas mionha passageira me deu seis pounds. É o que os ingleses sempre dão: tips ou, traduzindo, gorjetas.
Logo fiquei sabendo que é proibido ficar parado com o ricshaw em qualquer ponto da cidade. Um guarda me informou quando pediu para eu sair de onde estava parado. Questionei-o. “Mas porque não posso ficar estacionado? Não estou atrapalhando o trânsito de veículos nem de pedestres ou obstruindo sinais…” A resposta: “Os rickshaws são muito maiores que as bicicletas e por isso ocupam muito mais espaço que elas. Além disso, vocês não pagam nenhum tipo de taxa para trabalharem por aqui. Então, não têm direito de ficarem estacionados em nenhum lugar. Se o virmos parado novamente você será multado em 80 pounds.” Achei justo. Tudo com muita educação, peculiar dos policiais daqui. Agradeci-o pelas informações e saí. Porém, impossível ficar pedalando o tempo todo. Alguns lugares a polícia faz vista grossa e não fiscaliza. E assim seguiram minhas descobertas.
Nesse primeiro dia transportei ainda uma senhora indiana, uma senhora e um casal portugueses, uma moça inglesa e mais duas moças e um menino russos. Fiz 35 pounds no dia, que terminei cedo, lá pelas 21h. Estava cansado. O trabalho é pesado. Minha impressão sobre os caras maltrapilhos estava mudando.
Sábado foi um dia terrível. Estacionei o rickshaw ao final da ponte de Westminster, quase na frente do Big Ben. O fluxo de pedestres naquele local é enorme, indo e voltando da London Eye e do London Aquarium para o Big Ben e Parliament House. Achei impossível ficar por ali e não pegar nenhum cliente. Dito e feito. Em dez minutos fui abordado por 5 ingleses de meia idade, um tanto bêbados. “Quanto você cobra para nos levar até Fulham?”. Era longe. Disse 50 pounds; mas precisaria de outro rickshaw. E apareceu. Nessa hora errei. Não deixei muito claro que eram 50 pounds cada um. Ao final da corrida nos pagaram 50 e só. Eu e o outro cara reclamamos: faltam 50. E aí tive a pior experiência como “rider” (como dizem por aqui). Os passageiros começaram a se alterar (lembrem que estavam bêbados), a gritar, armaram o maior barraco. E você, bom da cabeça que é sabe: não é possível discutir ou argumentar com bêbados. E fiquei sabendo aqui: ainda mais ingleses. Ainda mais em inglês. Acabei saindo do local e trouxe o outro cara comigo, que insistia, em vão, receber os outros 50 pounds.
Para completar o dia peguei dois moleques de seus 17 ou 18 anos que acompanhavam duas meninas da mesma idade e pegaram um rickshaw que ia na minha frente. Soltaram de cara a frase célebre “Siga aquele rickshaw!” Falei com o outro rider, que conduzia as meninas o que era aquilo e ele disse que apenas íamos dar uma volta contornando as praças Licester Square e Trafalgar Square e combinou o valor em 5 pounds por pessoa. Num semáforo um táxi me fechou pois parou para pegar passageiros, o que me fez perder de vista o outro rickshaw. Porém continuei com a volta programada. Na subida, já retornando à Licester Square, em meio ao trânsito parado, um dos moleques falou: “você é muito lento!” Nesse instante ambos saltaram do rickshaw e correram, se misturando à multidão na praça. Não pagaram. Dei a volta o mais depressa que pude e cheguei ao outro lado da praça, onde os havia pego no início da volta e que por coincidência ou não era o mesmo sentido para o qual eles haviam corrido. Óbvio, dei de cara com os dois. Saltei do rickshaw e por uns dez segundos corri atrás dos dois, assustados, em meio à multidão na praça. Estava quase pegando um quando pensei que havia deixado rickshaw, dinheiro, tudo abandonado no meio da rua. Parei, respirei. Voltei ao rickshaw e pedalei até a garagem. Era hora de parar naquele dia.

