12
de
agosto
Rickshaw I Pré Impressões e Realidade
Lembro de ter visto o primeiro rickshaw a primeira vez em que estive na Leicester Square. Sim, definitivamente essa é a primeira imagem que tenho desse tipo de transporte alternativo gravada em minha memória. Obviamente que já havia os visto em filmes ou em fotos, mas sempre eram conduzidos por homens a pé. Explico. Muito populares na China e na Índia os rikishas são aqueles “carrinhos” que transportam duas ou até três pessoas. Nesses lugares são comumente puxados por um homem a pé à frente dos passageiros que viajam sentados em um banco, protegidos por uma capota. Geralmente esse banco e a capota estão apoiados sobre duas rodas de bicicletas, lembrando muito uma carroça. Descrevo-os para falar que por aqui são bem diferentes disso. Não me culpem por deixar a mente de vocês viajar a outros locais e criar imagens, mas é porque o descrito traz à tona de nossa imaginação o que sempre vimos nos filmes e fotos e servirá muito de exemplo. Continuando, os rikishas daqui já são diferentes no nome: rickshaws (no plural) ou rickshaw (singular). Estão mais para bicicletas de três rodas (seriam tricicletas?) que para uma carroça, como os outros. Existem basicamente dois modelos: um com duas rodas atrás e a outra à frente, onde os passageiros vão atrás de quem conduz. Outro, o inverso do primeiro, transporta os passageiros à frente de quem vai pedalando. Na região central de Londres, mais precisamente em Covent Garden, Leicester Square e Piccadilly Circus são muito numerosos.
Pois bem, como no início do texto, a primeira impressão que tive ao vê-los não foi das melhores. Bicicletas-geringonças guiadas por jovens mal vestidos, com aparência um pouco suja não passavam muita segurança. Todos reunidos esperando e oferecendo passeios a quem passava. Remeti diretamente meu pensamento aos perueiros de São Paulo. Não gostei. Nunca pensei em pegar um, mesmo porque era frio, eu tinha minha própria bicicleta e não via sentido algum em entrar num daqueles.
Muito bem, o tempo foi passando, o verão chegando e a quantidade de eventos nos quais eu trabalhava diminuindo. Comecei a ver os rickshaws com outros olhos a partir do momento que vi um anúncio na escola de inglês que oferecia a locação de um para trabalhar pelas ruas.
Pensei que poderia ser uma hipótese a se considerar haja visto que o volume de trabalho vinha decrescendo. Mas por um período parei com a idéia assim que fui aprovado numa entrevista para trabalhar numa rede de fast food francesa chamada Prèt a Manger. Excelente, pensei. Emprego fixo, dinheirinho garantido a cada semana, verão ou inverno. Porém, nunca cheguei, de fato a ir trabalhar numa loja da rede. Por precaução ou por aproveitar a demanda de mão de obra que existe por aqui, as empresas (não sei se todas) contratam, antes de haver efetivamente uma vaga aberta. Apesar de aprovado devo ter entrado numa espécie de fila, esperando a abertura de uma vaga numa loja nas proximidades de minha casa.
Cansei de esperar e fui atrás do rickshaw, literalmente. Peguei minha bicicleta numa tarde ensolarada e fui circular pela região que mencionei acima. Não demorou muito para encontrar diversos rickshaws e seus condutores maltrapilhos. O primeiro com quem conversei foi um japonês. Muito educado, mas falando um inglês muito ruim ele me disse que gostava do trabalho e que dava para tirar um bom dinheiro. “Você não tem chefe nem horário para trabalhar. Faz seu itinerário e cobra o quanto quiser, de acordo com a cara do cliente.” Interessante. Me passou o telefone do dono do seu rickshaw, um cara chamado Jean. Andei mais e conversei com outros. Todos lugavam com o mesmo Jean. Com um deles peguei o endereço direitinho. Tentei contato pelo telefone, mas caia na caixa postal. Era sexta-feira e acabei voltando para casa sem ter feito o contato. “Tento amanhã”. De fato funcionou e consegui falar com o tal de Jean. Fui ao local onde ele guarda os rickshaws, no subsolo de um hotel bem próximo ao centro. “Não há nenhum rickshaw disponível hoje. Volte na segunda entre 2 e 3 da tarde que conversamos melhor.” Ok. Na segunda lá estava eu, nada. Terça, novamente, na quarta disse à ele que me ligasse se na quinta houvesse algum disponível. Na sexta teve. O esquema: 85 pounds por semana para alugar, mais 120 pounds de depósito retornáveis, pagos uma única vez. Não há regras além das de trânsito que regem as bicicletas. “Tudo o que você ganhar será seu. Tem gente que faz até 400 pounds numa noite”. Incrível! Me dá logo essa bike que quero pedalar!

